domingo, 30 de outubro de 2011

Vestido de Noiva



Naquele quarto vazio se encontra o que não se deseja,
Alojado a sete chaves na inconsciência,
Toda a privação sofrida e a devastação da alma,
Nada é revelado na alcova dos sentidos.

Palavras corroídas pelos ácaros do tempo,
A promessa daquele sonho se incinerou sem pudores,
A caixa que se lacrou em segredo para sempre,
O ódio e a vingança sob a mesma lâmina embriagada de lágrima.

Um quarto marcado pelo silencio dos fatos,
Ninguém soube... Quem queria ousar saber?
A história se oculta na peleja dos seus atores,
O sorriso que enegreceu no cálice da boca.

Qual seria a verdade branca daquela cena?...
O quarto isolado acolhe triste combinação pictográfica,
Um vestido de noiva estilhaçado com fervor,
Uma carta manchada de rubra desilusão,
O amor traído pelas nuanças da vida,
Sob um corpo em decomposição de mulher.

sábado, 29 de outubro de 2011

Estrada (Sem Saída)




Quando o silêncio reina,
A negação castradora prevalece,
Nada mais urge gesticular,
As pontes se desmoronam.

Quando a palavra que não envolve,
A cama caprichosamente não acolhe,
Os corpos não evoluem como era de praxe,
Invariavelmente, o deserto é o destino.

Quando um se afasta,
Dois se perdem e o frio acolhe,
Cada um no seu antagônico caminho.
Fazendo poeira para cobrir os rastros.

Quando a indiferença escancara a porta,
Os sentimentos escorrem pelos poros,
O esquecimento se torna tão evidente,
É bom refletir tanta coercitiva ausência.

Em cada curva, o joguete de bobagens infantis,
Numa bacia de verdades obsoletas e vazias,
A história fica sempre impregnada no retrovisor,
Escorrendo como orvalho relembrando a cama desalinhada.

Aquele beijo com gosto áspero de algum fungicida,
Basta de apostar na carta viciada ou em qualquer prêmio frustrado,
Na madrugada do passado deixado na borda da estrada,
Lições que teimam em nunca serem aprendidas.

A paixão é um sutil jogo marcado,
Carece de participantes ativos e praticantes,
A vitória sorri para quem conhece suas regras,
Aos tolos e arrogantes sobram as querelas do alçapão.

Perdeu, perdeu!... A despedida sem bilhete de adeus,
Resta desejar não mais se arrepender,
Jogar no asfalto a lista das desculpas vazias,
Esquecer os velhos atalhos da volta.

Como um castelo de lâminas sobre o pulso,
A distância é o único elo que se mantém,
Se um dos lados quis escolher assim,
Certo ou errado... Quem sabe?

Os sentimentos serão pulverizados tão brevemente,
Fadados no término da escrita destes versos,
Em liberdade, o Amor não tem dono,
A excrescência é não saber amar.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Autoengano (A Flor do Capital)



Num mundo estritamente de valor material,
Tudo se transforma em fúteis interesses imediatistas,
Um gesto de simples e insólito carinho,
Perde-se num oceano de inúteis e efêmeras banalidades.

 
No quarto escuro, a solidão e a agressividade,
Tomam os espaços dos laços de solidariedade,
A indiferença coabita com a violência,
Entre as mais simples relações humanas.


O riso histérico mostra seus os dentes podres,
Tirando galhofa da sinceridade de um sorriso brando,
As mãos se fecham sob o espelho de narciso,
E os braços são rispidamente cruzados.


O silencio reina totalitário,
Diante do mar de palavras aprisionadas,
Corpos flácidos, marcados e acuados,
São reféns de estruturas movidas pelo medo e a angustia.


“Time is money!” – diz o adágio da usura,
O inverso se faz mais presente ainda,
Quem dorme acorda atropelado,
Quem resiste é esquecido.


Partidos partidos numa farsesca opereta corruptora,
Política a la carte, manifestações atordoadas e ao gosto do freguês,
A democracia que produz ilusões, caricaturas e desigualdades,
Mercado simbólico que cria, reproduz e nunca sacia seus servidores.


Em sede febril, a boca oscila temerária,
Entre a secura e o fel corrosivo,
A natural trilha diária se transforma,
Inconscientemente na tortura cotidiana.


Há quem diga que as ideologias estão numa lápide,
Dentro de algum livro embolorado,
Na ante-sala de algum sanatório,
Aspirando ao que restou de pólvora seca.


O que triunfa sem maiores celeumas ou diplomacias,
Reduz-se na história vencedora que se diz meritória,
Todas as outras verdades são seladas,
Todas as outras mentiras são caladas.


A sensibilidade que restou é eclipsada,
Diante de uma bruta razão mecânica,
Quando o Amor se perde na estrada da ignorância,
Os instintos mais hostis florescem na lavoura de ervas daninhas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Lascívia



Não castrar na boca o bálsamo dos viventes,
Não desejar se limitar dentro de um hiperespaço perdido,
O oásis é tão visivelmente raro como um vagante cometa.


O conforto pela proteção é tão indigesto quanto o próprio desconforto,
Não há segredos eternos, exceto os que são amplamente falsificados,
Tampouco existe algum ensinamento que não seja aprendido com a sensibilidade.


Pulsa febril no solo fértil na derme aromatizada,
O desejo se faz verdadeiro na latência da carne,
O jocoso fluído deslizante que enobrece uma árdua conquista,
Dedos delirantes que reproduzem uma arrítmica ansiedade.


Quando o corpo pede é sinal que a alma devora,
Que seja nutrida toda entrega plena e terna possível,
Diante do encontro ofertado pelo inverossímil destino,
Porque toda corte se faz majestosa no devido enlace dos corpos.

Cálice



Raras as fontes onde se é possível mergulhar
Com tanto ímpeto sem hesitar.

Não se pode agigantar gratuitamente o medo
Sob pena de sucumbir a ele.

Aguardar ser superado todo o anseio preliminar
Sem deixar um gosto ligeiramente acre nos lábios.
 
Aquilo que é velado,
Carece aderir a uma atmosfera mais libertária.

Para cada cálice embebido,
Que seja sorvido lentamente aflorando o desejo cutâneo.

Para cada gole ingerido,
Que seja sentido como se fosse exclusivamente o derradeiro.

Para cada vontade revelada, 
Que seja transgredido tudo aquilo que foi proibido,

Livre de toda culpa cravada na memória,
O céu da boca é onde desemboca um oceano de acontecimentos,

Melhor se afogar no cálice do desejo interditado, 
Que morrer na secura da ignorância autorizada.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Fantasias



Uma flor será sempre uma flor,
Um olhar será sempre um olhar,
Um toque será sempre um toque...

Até que se possa fazer de um simples gesto ou ação,
Um novo desenho ou uma quase invenção,
Com um novo sentido, com alguma empolgação.

Na incoerência reside a nódoa de pequenos deslizes sinceros,
Na verborragia tola há uma cesta de lúdicas bobagens patéticas,
Na hesitação é disparado o ato falho que discretamente incrimina.

A vida se desnuda como resultado inevitável,
De símbolos históricos, mecânicos e cotidianos,
A epifânica fantasia que cada um se refaz.

Significantes fulcrais, reais e imaginários,
Significados para serem digeridos num divã,
Sacros, sacrilégios e uma sede nunca saciada.

Artifícios que se cultivam a fim de serem processados,
Na impossível amálgama de existências quase reais,
O tempo corre invariavelmente indiferente a tudo.

No encontro profano de Marx, Freud e Sade,
O pulsar de matéria, desejo e gozo,
Na justa medida do que o ser humano é capaz.

Da máscara cordial à vã retórica social,
Da fotografia familiar ao vício privado,
Da cama desalinhada à permissiva intimidade.

A fantasia das ruas,
A fantasia dos salões,
A fantasia das alcovas.

A vida que pulsa, atina e patina,
Entre a angústia pessoal e o contrato coletivo,
A realidade que teima sempre em subverter a ficção.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Entrelinhas




A distância é como uma ponte elevada
entre dois pontos antagônicos...

Quando os olhos não mais conseguirem
visualizar a outra extremidade...

As palavras buscarão silenciosamente
complementar o curso solitário da retina.

Receita de Bom Dia


Pegue um dia qualquer,
qualquer um mesmo,
sem muita cerimônia ou agitação.

Tempere seu amanhecer com alegria e disposição,
Polvilhe com alguns desejos mais sinceros,
sem tanta soberba ou timidez.

Unte a forma do desconforto com um largo sorriso,
Adoce a vontade sem exagerar no sal.

Deixe aquecer lentamente em fogo brando...
sem passar do ponto ou cair na monotonia.

Quando sentir mais confiante...
retire do fogo sem deixar esfriar muito.

Ponto! Agora, coloque em pratos limpos todo o incômodo...
e sirva com suave tranqüilidade em serenas porções.

Ah, é bom deixar avisado!
Não tenha receio de recomeçar tudo de novo,
caso não saiu do seu agrado.

Aquarela


Entre todos os tons,
prefira sempre os menos foscos e opacos.
Uma tarefa necessária da existência
é buscar dar um colorido
mais vibrante e significativo a Vida... 

E o tempo se encarregará
da melhor dosagem
na tonalidade das cores.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fragmentos do Todo



Quando o Sol se apruma,
A tempestade cessa de azucrinar,
O dia com vigor se envaidece.



O astrolábio se aposenta sem mais ocupar espaço,
O passado registrado é uma caixa de cal,
O futuro não passa de uma ingênua metáfora.


Lágrimas, saudosismos ou projeções astrais,
Apenas servem para tricotarem as bordas do vazio,
O nada não existe, mas a falta encarcera e entorpece.


Louvemos cada existência como um espetáculo singular,
Sob o risco de cair na indigesta e pífia banalização,
A margem de cada angustia efêmera esta o cálice da insanidade sem freios.


No cardume de opções lastreando algum rio está o engano,
A ilusão dizendo que nos constituímos como modernos,
Toda certeza de perna curta oscila entre a prepotência e o sanatório.


De tantas foram às acaloradas promessas de Paraíso,
Tantos falsos templos que somente fizeram macular a fé,
Que se naturalizou a presença da barbárie.


Que a vida somente pode ser vivida no presente,
Entre o prazer da simplicidade do toque,
E a emissão das palavras não simbolizadas.