segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Curso dos Dias


À Amiga Luciana


É, minha amiga, sei que o desvelo da vida nunca é trivial,
E com tanto vigor ainda para ser sentido neste seu coração,
Vem o destino com seus debochados caprichos,
Descontrolando o ritmo do curso dos dias.


As vezes queremos logo mudar o que esta fora de lugar,
Encontrar nosso destino tão brevemente e sem pestanejar,
Com a vontade escancarada e ingênua em não sentir dor,
Porém, o desejo e a realidade nunca correm num mesmo barco.


Sei de sua coragem e da fortaleza hercúlea que carrega consigo,
E, sem dúvida, isto lhe trará sempre a iminente superação,
Invocando a presença de sua força, nunca deixará que o corpo canse,
E tampouco sentirá as coisas marejarem em vão.


Que o seu caminho seja trilhado com seus pés firmes ao solo,
Resgatando toda aquela sua alegria merecida,
Que possa ser resumida no esboço de seus lábios,
E nos afagos acalentadores dos seus filhos.


Ah, e nem pense em culpar a esfinge de Deus,
Sabe como é, tanta coisa para se tomar conta,
É verdade que Ele tem seus momentos longos de relapso,
Talvez Ele esteja apenas cochilando com o sensor de alerta desligado.


Mas nada disto vai lhe causar algum desânimo,
Sua magnitude pueril é maior que os desafios impostos,
Tão breve correrá novamente sobre o asfalto e folhas secas,
Pisando consistente em seus exercícios cotidianos.


Sei que as vezes bate um tédio sobre o colchão,
Isto é tão normal para quem é bordado com tecido humano,
Quem é que nunca sentiu um certo cansaço na vida?
Lembre-se que com a cabeça altiva você nunca deixará de ser vencedora.


Olhe por tantos desafios por onde já andou e superou,
Sem entregar os pontos ou dar bola para fantasmas,
Sem esmorecer os olhos e não dobrar os joelhos,
Toda a luz acompanhará o caminho do seu esforço.


Com sorrateira surpresa, quantas vezes a vida nos deixou ao chão?
De repente surge o inesperado: gostosuras ou travessuras?
Ninguém sabe com alguma razão a trajetória do desenlace cotidiano.
Seja sempre a mesma mulher combativa sem perder a doçura íntima do coração.


Esteja certa que mais dias ou menos dias,
Os momentos de olhos em claro cessarão,
E da instabilidade aflita de suas mãos buscando alívio,
Brotará a Paz iluminada que inundará o seu peito de tranqüilidade.

domingo, 16 de novembro de 2008

Amores (I)miscíveis (As Metades Presentes)


A rua de lá,
Não é a mesma de cá,
Lá se encontra o meu desejo,
Cá estagna a presente ausência.


Lá e cá,
Divididos por uma muralha chinesa,
Tão perto e tão eqüidistante,
Unidos por um vazio silencioso.


Lá não sei ao certo onde você está,
Cá estou sem saber do chão onde me encontro,
Brumas pousaram densamente sobre nossas cabeças,
Lá e cá onde tudo se turva em desvairado nevoeiro.


Lá é mais fácil de sustentar a ilusória auto-preservação,
Cá não há júbilo para tanta insípida opressão,
A vida caminhando moribunda em cima do muro,
Lá e cá são faces porosas da mesma latência.


Lá está o frio que seu corpo finge não sentir,
Cá está congelando ao som da melodia de Piaf,
O pouco Sol não é suficiente para ninguém,
Vem a chuva a encharcar a todos nós.


Lá definitivamente não é anil,
Cá perdeu as cores há muito tempo,
Cinza dá o tom da reentrância dos meus pensamentos,
Lá e cá perderam as caixas de lápis com grafites coloridos.


Lá pensa que pode ignorar a dor,
Cá sobrevive apesar da dor,
Atávicos sobre mundos em procissão,
Lá e cá reinam insólitos na inútil autofagia.


Lá os lábios foram voluntariamente aprisionados,
Cá o cárcere se tornou um indescritível jazigo,
Julgamento sumário sem ressalvas para a defesa,
Lá e cá no calabouço que fragmenta qualquer vida.


Lá os olhos se fecharam,
Cá os dedos não alcançaram o topo da muralha,
No silêncio onde todos se afogam,
Lá e cá vagam sem mirarem algum rumo.


Por que não sai daí,
E vem para o lado de cá?
Se os sonhos que estão aí,
Forem semelhantes aos ensejos palpitantes aqui.


Lá pode ter a frieza de algum jardim adormecido,
Cá é onde se encontram todas as flores para ornamentá-lo,
Os caminhos se cruzam no eixo de duas vidas,
Lá e cá são amálgamas de um curso pautado sob as luzes de duas rotas.


Lá é possível maltratar os dias,
Cá responde à isto com tristeza,
Quem ganha no corte fino da angústia?
Cabe ao tempo responder sobre a enfermidade das metades.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A Distância do Sol


A distância quando aperta é um corte na derme,
A incomunicabilidade patente que ensurdece,
Sem saber de algum paradeiro cotidiano,
Os olhos são limitados pela extensão da ausência.



Despertar e sentir a longevidade da dor sem teurgias,
A devassa escuridão ausente nos lábios que outrora sentia,
A cama vazia e o silêncio do telefone,
Sentado à beira da cama e não saber sobre o seu dia.



Herdar o malogro dos lábios selados com uma cruel severidade,
Levantar com tibiez do leito e caminhar pela casa,
No banho, os pensamentos saltam assimetricamente,
O café se torna mais amargo do que em outros tempos.



O Sol desanimadamente ascende ao céu,
Irradiando alguma iluminação ao redor,
Entretanto as questões que empilham na mente,
Não encontram as respostas tanto ansiadas.



Os dias transcorrem transitando com esparso ânimo,
Os quilômetros exauridos que afasta a suavidade do desejo,
O rio de liberdade lacrada que silencia os vocábulos,
O Sol que não aquece as mão em gelo.



Buscar em vão atravessar todo este oceano,
Mãos ornamentadas por algemas insalubres,
O que dizer quando o silêncio domina a atmosfera?
Não há bola de cristal para desvendar os olhos vendados.



O Sol transpassa a distância sem a sua presença no meio do caminho,
As horas fragmentadas e circulantes dos ponteiros do relógio,
O desaparecimento tácito da boca levemente umedecida,
Escrevinhar os ecos uivantes dos ventos em blocos de rascunho.



O tolo veranico que abafa os dias e não deixa a alma respirar,
O trânsito que enfileira automotores e azucrina os ouvidos,
Não há caminho certo para a alça dos dias e a sofreguidão das noites,
E os olhos permanecem estáticos sem a oportunidade do desvelo.



Há sementes pálidas germinando de saudade nua,
Que foram polvilhadas no solo salgado da deserção,
Do alto, o Sol com a sua indiferença motriz aquece a terra insípida,
Florescem pétalas caídas sobre o porta-retrato ao longo dos dias calados.



A árdua ambivalência de lidar com a conformidade,
A incapacidade de não saber e não tocar na tez amada,
Não existem palavras que exalem com exatidão tantas sensações,
E ao final da tarde, não há Sol que minimize uma severa saudade.


domingo, 9 de novembro de 2008

Desesperadamente Amor


A noite era uma nuvem negra,
Que adentrava sorrateira em seu quarto,
Outrora onde tudo que era vida,
Tudo parecia ser consumido sem clemência.


Ela estava sentada no meio de sua cama,
Esvaziada com seus poucos pertences,
Com suas pequeninas pernas encolhidas,
O medo congelava seu desesperado coração.


Os cabelos de menina encobriam seus cintilantes olhos,
Suas mãos curtas escondiam suas pálpebras,
Os lábios finos se uniam como se tivessem costurados à mão,
Desarticulado, seu franzino corpo tremia incessantemente.


Com a chuva torrencial que assolava o céu,
E o frio intermitente que batia à sua janela,
Ela se encolhia cada vez mais como um simples caracol,
E dois longos filetes de lágrimas brotaram sobre seu rosto.


Na medida em que a tempestade se intensificava,
Alguns trovões estremeciam o quarto,
Relâmpagos aperiódicos iluminavam o recinto,
E aquele pavor que subia do estômago à boca.


Suscitando vagas lembranças, ela conduziu seus pequenos dedos,
Circundando levemente algumas feridas ainda doloridas,
Desde a última vez que aquele homem brincou com o seu corpo,
Na tentativa inútil de fugir dos carinhos de intimidade sem nenhuma graça.


Queria gritar com o que ainda restava de ar confinado em seus pulmões,
Porém, a atávica angústia preenchia seus cansados olhos,
Queria fazer algum barulho para chamar a atenção de alguém,
Com os dedos petrificados era improvável qualquer saída.


O vento uivava parecendo clamar pela mãe,
Mas qual mãe se nunca tinha visto seu vulto pela frente?
O pai era uma mera abstração simbólica de sua mente,
Ela se sentia a solidão encarcerada em si mesma.


Mais uma ensurdecedora trovoada,
A menina se agarrava desesperadamente à seu bicho de trapos,
Como se fosse a mão de sua tão sonhada proteção materna.
Que certamente acalmaria suas ansiedades pueris.


Sozinha naquele quarto úmido e escuro,
Nem mesmo atormentados fantasmas a visitavam,
Um resto de sopa permanecia num prato assentado sobre a cômoda,
E um pedaço de pão com três pequenas mordidas.


Desesperadamente ela queria ser protegida,
Ser tratada ao menos com algumas gotas de atenção,
Não tinha muita idéia do que era tudo aquilo,
No fundo, ela somente queria que seus ossos não tremessem tanto.


Ninguém sabia quem era aquela criança ou como chegou até ali,
Tampouco o nome de batismo ou endereço conhecido,
Lá estava ela esperando alguém reclamar a sua existência,
Era mais uma alma lançada no meio da hostilidade do mundo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ouro do Tolo


O homem é o que não é o que é, e que é o que não é. (Hegel)


A cada passo que dou,
Dentro da solitude que me acompanha,
Nem sei mais ao certo,
Desembrulhar ou não alguma razão.


Dentro das premissas do bom convívio,
Das articulações estéreis do mundo das aparências,
Nada é mais medíocre, falido ou patético,
Arregimentar vaidades corrosivas e imaturas.


Descartando a preferência pela avenida das futilidades,
Destilo meu asco pela simplificação do senso comum,
Reluto em não martelar a insatisfação imediata do ego,
Procuro não deixar seduzir pelas quimeras banalidades narcíseas.


Não cultivo cobaias em laboratório,
Tampouco conduzo experiências de ventríloquo,
Não quero ser a voz da obviedade filantrópica,
Não chuto a canela alheia e não dou carrinhos futebolísticos.


Ser e nunca ser o que jamais desejei,
Não balbuciar arrogância premeditada dos abutres,
Sem crivar os olhos em boçalidades estúpidas,
Não deserdar do campo de batalha e não deixar os corpos sucumbirem em vão .


Não quero me hospedar em asilos,
No jazigo do breve fim dos meus líquidos dias,
Detesto comida pré-fabricada em latas galvanizadas,
Não coleciono o silêncio dos sentimentos em potes de margarina.


Não faço coro com os que se iludem com o tesouro no final do arco-íris.
Não me convence a estrada dos banguelos sorrisos amarelos,
Não ajudo a conduzir a alma alheia pela alça do sepulcro,
Não levo a vela para a vigília em soturnos cemitérios.


Entre derrotas sacrificadas e minguadas vitórias,
Procuro ir um pouco além do que é possível ser,
Talvez esboçar algum pálido riso e se acostumar a ouvir o eco do vácuo,
Na divergência dos constantes sonos intranqüilos.


Não acredito na eclosão de revoluções,
Herdadas pelas cretinices dos que miram para o próprio umbigo,
Não acredito em marionetes ditando normas,
Tampouco sacio minha sede em sangue alheio.


Entre chuvas torrenciais e noites escuras,
Na solidão dos meus passos e o clarão ébrio da lua,
Sigo o que ainda consigo acreditar,
Sem desejar morrer voluntariamente pelo ouro dos tolos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Hostil Primavera


Na manhã que se levanta fria,
A sensação térmica castiga os lábios,
Busco aquecer em vão meus dedos,
A Primavera hostil vai bem além do registro dos termômetros.


Os automóveis trafegam com moderado barulho,
Um som tão abafado quanto disperso,
As folhas do calendário vão sendo trocadas,
Debaixo dos escombros resiste a saudade intacta.


Alguns pássaros tomam coragem e entoam um canto triste,
Parece um ruído indescritível de lamento,
Talvez sintam a tristeza dos olhos levados pela maré,
Quem sabe o que se passa dentro de um coração?


Ninguém tem tanta certeza,
A ponto de afirmar com exatidão,
Não basta tarô ou quiromancia,
Pouco adianta para desvelar um violento silêncio sem temperamento.


Uns acreditam nas Escrituras,
Outros se apegam ao crucifixo,
Não sei à esta altura o que é certo ou errado,
A vida tem uma razoabilidade manca e torpe.


Seria mais fácil viver dentro de um amorfo script,
Fingir um burocrático sorriso e distribuir gélidos abraços,
É bem mais simples fragmentar o espelho,
Melhor seria sete anos de azar à mergulhar dentro de si?


O que deve ser dito diante do demônio,
Dentro das profundezas de nós mesmos,
Quais mentiras devem ser suscitadas,
A inútil avidez para preservar a alma da danação.


Não há frio que resista à ansiedade,
Ela cresce e toma um espaço monumental na garganta,
O grito não ecoa e as palavras ficam limitadas pelo papel,
Queria poder com meus dedos sentir a sua face.


No quarto alguns papéis viram recordações,
Uma canção de acordes simples substitui o vazio,
A Paz relutante sem encontrar morada,
Segue o caminho da batalha no campo de invisível algodoeiro.


Na Primavera de flores despetaladas,
Sobrevivendo sob o fogo cruzado da tortura silenciosa,
Quem caminha à passos miúdos de peito aberto,
Estará sempre correndo o risco da sentimental inanição.

domingo, 2 de novembro de 2008

Dores Febris


No alvorecer monocromático das horas,
Estaciono meus pensamentos em qualquer lugar,
Linhas transversais que não ligam rotas exatas,
Apenas à pulsares impulsivo no tempo.


Queria mais,
Queria ir bem além,
Além de tudo o que poderia ser,
Transmutar a distância em afeto.


Deixar tudo o que causa dor e desconforto de lado,
Afastar tudo o que mareja e enrijece a solidão,
Romper tudo o que polvilha medo e ansiedade,
E talvez assim trazer você para o meu encontro.


Atravessar rios e pontes,
Cruzar avenidas e ruas movimentadas,
Escalar montanhas ou arranha-céus de egos burgueses,
E atingir no âmago o anseio lacrado no peito.


Não zelar por tantos equívocos,
Não maltratar a verdade,
Não ser categórico com a fluidez do esvaziamento,
O Paraíso não vai muito além de nossas mãos.


O vício que nos cerca sem rumores,
A bomba que explode com dois feridos,
As marcas expostas como quadros do MASP,
O roubo da Paz como obras afanadas da pinacoteca.


Não há motivos para tanto desenlace,
Não há sangue para tanta cólera,
Não há caminho plausível sem paixão indolor,
Cintilam as dores do parto e as dores febris.


A sintonia viva no silêncio abissal,
Ambivalência nunca esquecida,
Lábios formigando com desejo inflexível,
O pulso oscilando a palpitação sem a completa entrega.


O sorriso moribundo,
A lágrima sufocada,
A palavra banida,
A angústia reinante.


Melhor negar à dizer a verdade?
Quando o tapete encobre todas as incertezas,
Aceitar tudo contemplativamente estéril,
É assinalar que a vida é uma mera esteira fleumática da linha de produção.