quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Dedicatória (Elementos para uma Canção Cotidiana)


Quando ao acordar pela manhã,
O corpo ainda não despertou totalmente,
Seus pés ainda demoram a ser firmarem ao chão,
Meus olhos atentos guiará seguramente suas mãos.


No percurso que leva até o seu ofício,
No meio do tráfego intenso e aturdido,
Com a cabeça martelando inquietações,
Conduzirei os seus passos para amenizar o desconforto.


Na batalha cotidiana pelas tarefas obrigatórias,
Um café amargo e a pilha crescente de documentos,
Incansável labuta onerosa que conduz dias à fio,
Ficarei observando bem atentamente o seu empenho.


Sob as agruras provenientes da secura do ar-condicionado,
Ou no calor abafado pela estufa que se forma no ambiente,
O crescente cansaço inato das mãos e um pouco de cefaléia,
Tocarei seus ombros levemente buscando diminuir toda a tensão.


Rápida pausa para a alimentação sem descolar dos ponteiros do relógio,
Na urgência rítmica da tarefa bem-feita,
Na precisão implícita da qualidade empregada,
Estarei aplaudindo a competência tão bem exercida.


O corpo exausto é iminente,
As horas duras demoram a passar,
A respiração acelera e a ansiedade desponta na derme,
Acariciarei seu rosto de forma a dar-lhe algum alento.


A tarde passa sem lastro,
A noite caminha à passos lentos,
A rotina do dia chega ao seu esperado final,
E com uma rosa sobre o seu cabelo irei observar aquele singular sorriso.


Na saída, uma típica chuva de verão desaba,
Inconveniente e com seus longos pingos d' água,
Mas longo o temporal se apazigua em fracos chuviscos,
Protegerei seu corpo para manter suas vestes aquecidas.


No ansiado regresso ao lar,
Os pés cansados repousam sobre o estofado,
Pensamentos assimétricos e soltos sem encontrarem morada,
Meus dedos sentindo com ternura e leveza a sua face.


Logo, aquele lento e acalentador sono chega sem aviso,
Adormecida, seu corpo relaxa tranqüilamente,
Mais uma noite para repor brevemente a energia empregada,
E receberá meu beijo de afeto cintilando em seus lábios e desejando-lhe boa sorte.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sortilégios


Não há estrada,
Por onde eu caminhe,
Que seu semblante não esteja presente,
Incorporada com o confinamento incontido do coração.


Os dias são sorvidos até à exaustão,
Um misto de trabalho e memórias,
Melhor mesmo seria desatar os enlaces entre nós,
Porém, nada me faz desvencilhar do seu olhar.


Muito mais fácil seria mentir,
Fingir e sorri palidamente para todos os cantos,
Diante da crua realidade do quarto imerso no breu,
São tantos os pensamentos que não adianta teatralizar.


O tempo ainda veleja carregado e nublado,
Seja além do parapeito da janela ou diante do desfilar de sortilégios,
Uma tonalidade sem cor descritível e brilho turvo,
Seguem secos os lábios com a esperança de tocá-la em algum momento.


A crueldade malogra do destino,
Que nos une, pune e separa,
A insensatez do tempo desnecessário,
As palavras arquivadas num baú de desencontros.


Os desarranjos separam os dedos,
As mãos abertas sempre perfiladas para o alto,
Submundo hostil de pouca iluminação,
O vácuo solene dos vocábulos inaudíveis.


A claridade da tarde começa a se esvair,
Inicia-se um novo oceano transbordado de desalento,
A saudade pétrea que bate à porta todos os dias,
As palavras são mais intensas do que rimas simples e banais.


O que cabe a cada um de nós,
Sem nenhuma certeza diante do futuro,
Estrada rompida e cheia de imperfeições,
Quem é o dono do seu próprio caminho?


A cada noite esvoaçante observo ao relógio,
Um sentido muito mais ávido que vai além da Paixão,
Como se pudesse contar cada desejo de estar ao lado,
Sublimando todo o mar de prédios e asfalto que nos desagrega.


Tomara Deus! (Algum Deus dos ateus?),
Que a verdade se levante do seu leito de confissão,
Que possa ser ouvida as palavras do orador,
Que se oculta e se desnuda em sua direção.

domingo, 30 de novembro de 2008

Deserto Sabático


Deitado ouço a chuva despencando sobre o teto do quarto,
Chuva intensa do veranico de novembro,
Faz calor e a sensação térmica é bem maior,
É sábado e não há novidade no ar.


A intensidade volátil das gotas d' água,
Ampliam-se velozmente com a queda intermitente,
Um forte e denso barulho ressoando na janela,
É sábado e nada acontece como se desejaria.


As nuvens aterrizam-se silenciosamente,
Tudo fica mais acinzentado e dificultando a visão,
O dia se movimentando palidamente,
É sábado e as mãos estão estagnadas.


Os automóveis rompem as ruas com barulho intenso,
Nas sarjetas escoam rios de águas imundas,
Uma galeria eclode e escoa tudo que nada mais serve pela calçada,
É sábado e o dia caminha rotineiro e extático.


Os faróis cintilantes se esconderam sem aviso prévio,
As pálpebras colhem lentamente as perdas com a inundação,
Ao redor um deserto se formou movido por uma espessa penumbra,
É sábado e os pássaros agora gorjeiam desmotivados.


Queria atravessar a ponte e não sei ao certo como fazer,
Rompida pela insensatez dos sentidos,
A linha invisível que liga um olhar ao outro,
É sábado e as horas ultrapassam o martírio da espera a inexata.


Pela cortina observo que a chuva retornou com mais força,
Fico pensando no tempo onde tudo era muito mais afetivo,
Agora o que resta de nós senão a solidão do outro,
E somente não é pior que a solidão de si.


Um jejuar involuntário sem vontade,
O sabor acre comedido do sábado,
Sem recitar nenhuma oração sabática,
A chuva permanece aqui dentro.


Segue o sábado com chuvas intercaladas,
Ora temporal, ora estiagem,
O clima instável não permanece tão diferente,
Do que veleja no interior dos pensamentos aqui dentro.


Os dias secos perfilam com raquítica pobreza,
Famélicos pelos dias de solidão e sem chão,
Recomeça a chuva pranteando lá fora,
E ao meu lado permanece o sábado atado e calado.

sábado, 29 de novembro de 2008

O Espelho Enterrado


Na imposição coercitiva da distância,
As palavras se rompem,
As pálpebras se fecham,
E os delírios da vontade ficam à deriva.


Os soldados marcham com firme alienação,
Aprumamos assim, pé ante pé,
Na fileira dos dias sem trégua,
Ao olhar para baixo, a água já passou da altura do joelho.


Que guerrilha é esta travada contra nossa história?
Na lida silenciosa contra o espelho,
Que face turva desejamos observar,
Para que(m) ansiamos nos iludir?


Por que contentarmos com parábolas de auto-ajuda?
Se não desejamos realmente nos ajudar,
Todo Amor que se afasta sem explicação,
É a vida que nunca floresce por inteiro.


Quem grita escancarado no alto da colina,
Nem sempre conquistará a benesse de ser ouvido,
Não subestime a capacidade da dor,
Ao adormecer, deixe os olhos sempre bem abertos.


Nas praças das almas esquecidas,
Quem joga milho aos pombos?
Quem atira sobre os próprios pés?
Resta então enterrar o espelho na frio madrugada.


Por que a complacência com o riso ensandecido das hienas?
Sucumbir aos caprichos carnívoros dos abutres,
Entregar o sangue com rodelas de limão aos vampiros?
Quem desiste da vida jamais se encontrará em momento algum.


Todos sabemos das pedras polvilhadas nos caminhos gelatinosos,
O suor sobre a teste denunciando o esforço atávico,
Quem quer viver com liberdade neste mundo do espetáculo,
Se nunca desejamos nos encontrar realmente?


Nossas fragilidades nos servem como inútil consolo,
Logo abrimos mão de qualquer serenidade,
Ao optar pelo lar doce lar do Inferno cotidiano,
Ninguém parece realmente levar a sério a si mesmo.


Filhos, famílias, ingratidões e pequenas mentiras sem grande importância,
Na composição dos dias de dores sem localização,
Ninguém pede salvação sem levar em conta seu próprio suicídio,
Apenas almejar um pequeno lote privativo no Paraíso.

domingo, 23 de novembro de 2008

Noite Vazia (A Saudade Nua)


E eu, e tu, / Perdidos e sós, / Amantes distantes,
Que nunca caiam as pontes entre nós.
(Pedro Abrunhosa)



Na rua por onde caminho,
Continua vaga e deserta,
A cada passo trocado na noite,
É um pensamento sem direção.


Agora começa a chover,
Deixo as gotas caírem sobre a minha cabeça,
Talvez desta maneira as coisas se esfriem um pouco,
E quem sabe amenizar os desejos agitados e intranqüilos.


Procuro aquecer minhas mãos dentro dos bolsos,
A respiração é dificultada pelo frio intenso,
Ouço alguns cães latindo erraticamente ao longe,
Que sinfonia mais esdrúxula numa noite vazia!


As vezes, tenho vontade de não mais parar,
Caminhar e caminhar firme e constantemente,
Cujo roteiro é o que meu nariz ditar,
Sem deixar pegadas ou marcas para trás.


Sinto a baixa temperatura começar a incomodar,
Não sei ao certo o que pensar ou se devo pensar algo,
A mente desafortunadamente vaga sem rumo,
E os meus pés sem chão seguem o mesmo itinerário.


Por onde cruzam as vias da vida?
Sem faróis vermelhos para interceptar o curso,
O que há além da contínua estrada?
Sinto que a sobriedade nem sempre é a melhor companhia.


A Lua ilumina com tamanha indiferença,
Como se ela não se importasse com nada ao redor,
O relato orquestrado e silencioso de minhas dores,
Que a cada noite rabisco através de alguns versos.


Com ou sem alguma quantia de álcool,
Na boca seca ou subindo à cabeça,
A noite tem um odor identificado sem muita precisão,
Mas certamente não é o aroma que almejaria sentir neste momento.


Um vento úmido bate levemente no rosto,
Ao contrário do peso da saudade despida,
Das pedras e promessas que carrego nos ombros,
Não acredito em nenhuma medalha para meu mérito.


No frio da noite queremos dizer tantas coisas,
Querer desesperadamente atingir de modo certeiro,
Os ouvidos dinamitados e mergulhados em silêncio,
E a voz permanece turva e rouca de tanto calar.


Sei que tudo conquistado foi apartado,
Todos os vestígios físicos de lembranças confiscados,
Uma sentida ausência de qualquer material tingido de sentimento,
Mas como esquecer a singularidade de um olhar cristalizado em bálsamo?


Na rua sem alma viva e onde os uivos solitários se aglutinam,
Somente meus passos trôpegos causam ruídos,
Tanto desejaria uma ponte que interligasse as distâncias,
Quem sabe assim poderia resgatar o seu coração.

sábado, 22 de novembro de 2008

Brumas Desérticas (Palavras Aprisionadas no Tempo)


De todas as palavras engaioladas,
As que mais causam sôfregas dores,
São aquelas registradas pela ausência,
Sem enfeitarem ou polirem os vocábulos.


Quanta ação é jogada fora,
Residindo intrinsecamente no verbo sentir,
Sensações suprimidas tão peremptoriamente,
A derrota corrosiva partilhada no vácuo.


Abro a janela e não sei o que pensar,
De uma aparência volátil com leve frescor e suavidade,
Logo vêm os pingos da chuva teimando em adentrar ao quarto,
Desfazendo toda a impressão inicial.


E aquela vontade de não sucumbir à dor?
Arquivada bem debaixo do travesseiro,
Na contabilidade do atalho narcíseo é mais fácil calar o silêncio,
Ao invés de erguer o hercúleo templo das palavras.


Lá fora não há nada: absolutamente nada!
Aqui dentro tampouco coexiste o desejo presente,
As brumas de tão densas servem para derrubarem as pontes,
E no limite, se encarregam de ocultar quem eu sou.


Seria o Destino implacável e mesquinho?
Maltrata e desarticula suas vítimas,
Relega à orfandade seus ingênuos reféns,
Resta então colocar a culpa nos deuses e suas indiferenças pagãs.


A tarde segue calada e fria em sua rotina cristalina,
O silêncio contamina o quarto como um febre terçã,
A sonoridade se emudeceu rapidamente,
E os lábios coçam na tentativa de emitir algum ruído.


Por mais que é refletida inadvertidamente,
Nenhuma idéia salta da parede com vigor,
Os fantasmas dos dias amargos batem o cartão de ponto,
A palavra castrada é a jaula hermética das incertezas.


O sono cai, o corpo desfalece e a escrita pesa,
A vida mimetiza a folha límpida do caderno,
A tinta desestimulada de registrar suas impressões,
O deserto se completa sem maiores surpresas.


Pensar e não realizar,
Pensar e nada poder atingir,
As palavras limitadas pelo papel,
As mãos aprisionadas sem ação.


Há dias que palavras e pensamentos se desvencilham,
Não se acham no mesmo espaço,
Como entidades abstratas biunívocas,
Enclausuradas em si mesmas.


Segue a vida,
Segue o corte,
Palpita o tempo,
Corrompe a liberdade.


Diante do horizonte mergulhado em sólidas nuvens,
O percurso é longo e as respostas são enigmáticas,
Com o suor salobro trilhando sobre a testa,
Na lida silenciosa pelo clarão dos seus olhos.


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Agonia (A Cabeça Sobre Trilhos)


O que impede-lhe de prosseguir?
As pedras na estrada ou a ponte oscilante?
O que faz-lhe recuar em seus anseios?
Nada paira impunemente sobre a mesa.


Ao longe dispara uma sirene,
Sinal de liberdade ou cárcere?
Quem joga dados no escuro,
Inevitavelmente, acaba sempre perdido.


Não brinque no meio da rua,
Nem atrapalhe os pedestres na calçada,
Tome cuidado com os veículos embriagados,
Afinal, quem garante a lucidez do volante?


Cuidado com as lâminas afiadas no meio do colchão,
Não faça da falsa tranqüilidade do labirinto sua gaiola dourada,
O martírio não precisa ser ostentado ou cultuado,
Tampouco carece recitar alguma prece no altar.


Não estabeleça o mecanicismo das metas tolas,
Não prometa o que jamais poderá cumprir,
Sem essa de colocar a culpa nos deuses,
O divino é sempre um inútil curativo para o destempero.


Aquelas mentiras jogadas ao longo do asfalto,
Tanta estupidez empilhada sob pressão,
Abaixe o volume do ego e não destile tanta prepotência,
Ninguém precisa viver bajulando a pequenez de suas vontades.


Não aponte o dedo em riste para ninguém,
Caso fizer isto, esteja sempre seguro,
Pior que a covardia de um falso delator,
É o zunir de um asqueroso mentiroso compulsivo.


Amenize seu orgulho ingênuo e teatral,
O mundo não é a imagem espectral do seu umbigo,
Não crie em demasia suas próprias míticas espectativas,
Liberte seu ego antes que seja por ele devorado.


Veja o tempo nublado e pouco afável as certezas absolutas,
Por que optar voluntariamente pelo caminho da infelicidade?
Não atropele a tudo que ainda lhe resta de esperança,
Pouco adianta entrar em desvario ao gritar contra a tempestade.


Tanto sangue evaporado pela impiedosa indiferença,
Não há ação sem causar pelo menos uma pequena dor,
Alerte os olhos e fique sabendo de um vez por todas:
Acredite, o mundo não vai acabar amanhã!