Espaço dedicado à análise, reflexão e crítica dos enlaces, desarranjos e autofagias do homem (i)material e o desencanto do mundo contemporâneo.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Receita de Bom Dia
Pegue um dia qualquer,
qualquer um mesmo,
sem muita cerimônia ou agitação.
Tempere seu amanhecer com alegria e disposição,
Polvilhe com alguns desejos mais sinceros,
sem tanta soberba ou timidez.
Unte a forma do desconforto com um largo sorriso,
Adoce a vontade sem exagerar no sal.
Deixe aquecer lentamente em fogo brando...
sem passar do ponto ou cair na monotonia.
Quando sentir mais confiante...
retire do fogo sem deixar esfriar muito.
Ponto! Agora, coloque em pratos limpos todo o incômodo...
e sirva com suave tranqüilidade em serenas porções.
Ah, é bom deixar avisado!
Não tenha receio de recomeçar tudo de novo,
caso não saiu do seu agrado.
Aquarela
Entre todos os tons,
prefira sempre os menos foscos e opacos.
Uma tarefa necessária da existência
é buscar dar um colorido
mais vibrante e significativo a Vida...
prefira sempre os menos foscos e opacos.
Uma tarefa necessária da existência
é buscar dar um colorido
mais vibrante e significativo a Vida...
E o tempo se encarregará
da melhor dosagem
na tonalidade das cores.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Fragmentos do Todo
Quando o Sol se apruma,
A tempestade cessa de azucrinar,
O dia com vigor se envaidece.
O astrolábio se aposenta sem mais ocupar espaço,
O passado registrado é uma caixa de cal,
O futuro não passa de uma ingênua metáfora.
Lágrimas, saudosismos ou projeções astrais,
Apenas servem para tricotarem as bordas do vazio,
O nada não existe, mas a falta encarcera e entorpece.
Louvemos cada existência como um espetáculo singular,
Sob o risco de cair na indigesta e pífia banalização,
A margem de cada angustia efêmera esta o cálice da insanidade sem freios.
No cardume de opções lastreando algum rio está o engano,
A ilusão dizendo que nos constituímos como modernos,
Toda certeza de perna curta oscila entre a prepotência e o sanatório.
De tantas foram às acaloradas promessas de Paraíso,
Tantos falsos templos que somente fizeram macular a fé,
Que se naturalizou a presença da barbárie.
Que a vida somente pode ser vivida no presente,
Entre o prazer da simplicidade do toque,
E a emissão das palavras não simbolizadas.
sábado, 24 de setembro de 2011
Palavras

As palavras são frutos sonoros e profanos do silencio,
Palavras vão além da mera frieza simbólica e assemelham-se as sombras,
Mesmo destituídas de alguma presença material,
Atravessam rios, pontes, edifícios, corações...
Sem tocarem em nenhum objeto alado ou concreto.
Poderão desconstruir todo um sólido e egocêntrico castelo,
As palavras são como faca em brasa ácida sobre a manteiga,
Podem queimar as mãos e escorrer manchadas pelo tempo.
Palavras que inflamam a luta dos bravos,
Palavras que explodem a loucura da malta,
Palavras que fazem descongelar corpos saciados ao chão...
Palavras largadas na beira da praia,
Palavras soturnas, caladas ou sufocadas,
Enfim, apenas palavras na peleja da solidão em noite vagante.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Percepção

A noite vindoura prateada pelo luar,
Incide sua luz perene sobre o olhar,
Quem não dorme não se perde no caminhar,
Quem mantém os olhos fechados poderá ficar condenado a vagar...
Quantos mistérios se escondem na alcova da noite?
Talvez um pouco mais alem do que uma claridade sem deleite,
Quando a água não se mescla no azeite,
Misture mais para que tudo seja bem leve e sem acoite.
Para relaxar sem guardar nenhuma dor hermética,
Desate o cinto calmamente sem medo algum,
O Amor se revela quando a soma aritmética,
Quando dois caminhos se transformam em um.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Ares Noturnos

No silencio que invade a madrugada,
No escuro olhar da paisagem,
Tingida com alguns respingos iluminados,
Na distancia que tilinta quando mais se carece da presença.
A lua vaga em pensamentos desalinhados e fragmentados,
No espaço profundo e difuso entre a vontade e a realidade,
Muitas coisas ficam levitadas no ar, talvez jamais verbalizadas,
Guardadas sob um lacre pesado e calado no céu da boca.
Sob ebulição tremula em algum coração no inverno solitário,
Na noite mais límpida e no olhar mais penitente,
Os lábios secam lentamente ao vento,
Enquanto o desejo ainda teima em pulsar.
O que verdadeiramente deixa rastro na alma,
Não é a poeira fina que leva a saudade,
Mas a brisa fria que bate impiedosa no rosto,
No lastro difuso de uma pálida dor na forma de lagrima.
domingo, 11 de setembro de 2011
Compasso

O ato de amar,
Não deixa ninguém mais pobre ou mais rico,
Mais bonito ou mais feio,
Mais maduro ou mais ingênuo,
Simplesmente torna a jornada mais humana.
Calma com a pressa ávida,
O Amor não é um mero bem material perecível e quantitativo,
Mas uma singularidade que brota robusta no terreno árido,
Da indiferença,
Do egoísmo,
Da agressividade.
Arriscar a delinear o seu campo,
Então seria o amor como um círculo,
Trezentos e sessenta e seis graus curvilíneos e pulsantes,
Independente de onde parte sua direção,
Os dois pontos percorrem todo um eqüidistante caminho,
Cedo ou mais tarde, se ainda permanecer algo do seu vestígio,
Segue de onde partir,
O circulo faz encontrar,
Quaisquer dois pontos,
Quaisquer dois arcos,
Quaisquer dois caminhos,
Num mesmo lugar.
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