sábado, 9 de fevereiro de 2013

Percurso





Corro das trevas,
Sem a esperança de voltar,
Quem dera que não fosse verdade,
Mentir para que a falta não se faça imperativa.


Corro do ódio,
Sem o desejo que me contamine,
A serpente que segue meu destino,
Azucrina sem demora meus pesadelos.


Corro da vingança,
Sem a vontade de matar,
Fraquejo e isto me faz tão miúdo,
Fortalece o inimigo tão visceral.


Corro da mentira,
Sem a verdade bater a porta,
As mãos calejadas estão vazias e abertas,
A saliva demoníaca realiza insuportável sangria.


Corro da realidade,
Sem olhar no retrovisor,
Impactos marcados na derme,
Vontade que semeia infértil na boca.


Corro da vida,
Sem querer balbuciar a dor,
Endógenas feridas no leito do corpo,
Abutres velejam sorrateiros no horizonte.


Corro da morte,
Sem acreditar que a terra úmida é o destino,
Tantos pensamentos soltos e nenhuma certeza,
A covardia dos afiados punhais a todo vapor.


Corro da solidão,
Sem saber ao certo como retornar,
Olhos abrem e fecham e nada é identificado,
Os demônios operam entre a moita e a neblina.


Corro de mim,
Sem a esperança de voltar ao que era,
Queria uma chance para repor o que nos roubaram,
O destino é a lápide que conforta nosso silêncio.


Corro da lembrança,
Sem saber se irei lhe esquecer,
A maldade sempre avisa o quanto ainda atormenta,
A alegria se foi e a verdade é uma flácida ilusão.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Afano Amoroso





Roubaram nosso tempo e a nossa história,
Afanaram abruptamente as nossas possibilidades,
Mentiram sem remorsos e tampouco foi lembrado o uso da piedade,
Para que nunca mais nos encontremos num único espaço.


Que outrora foi nosso momento de devoção,
Hoje é apenas distância e devastação...
O tempo congelado desde o nosso último abraço,
Triste desencontro daquele beijo de "até mais tarde"...


Hoje os demônios cruzam os céus com seus uivos melindrosos,
Enganaram seus olhos com a mesma facilidade que zombaram de minha índole,
Eu sei que nada foi em vão, mas ainda assim tudo foi insuficiente...
O seu ódio é tão nítido quanto a secura expressa em minha boca.


Não sei mais como lhe dizer nem como despertá-la do seu sonambulismo,
Nem ao menos sei como tudo isto pode de fato ter acontecido,
De algo tão natural e puro, sem os velhos vícios,
Afastaram de mim toda a doçura e o perfume que exalava do seu coração.


Lembro-me do seu beijo como se fosse ainda agora,
Mas já se passaram tantos dias, noites e estações climáticas,
Tanto tempo foi-se em vão nesta jornada infernal,
Somente o desengano povoou nossa constelação solitária.


Ouvi as mais densas provocações,
Perdi as mais inteiras noites,
Corri todos os possíveis riscos,
Nem ao menos você conseguiu abrir os olhos.


A cegueira que nos afasta injustamente,
O cálice de veneno que contaminou o seu corpo,
A sua alma enclausurada de medo e insegurança,
E todas as mentiras foram jogadas contra mim...


Se por um momento, Deus me presenteou com seus olhos,
O Diabo conseguiu afastá-los de mim,
Se tudo foi matreira coincidência ou fastidioso destino... Eu não sei,
Apenas sinto agora tão somente o preço que há na saudade.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Finados





A morte é o pior dos males de uma existência.
Nenhuma forma que seja possível de escolher o cenário da morte poderá ser considerada boa. A morte é o fim físico que poderá deixar latente alguma saudade na memória daqueles que ainda permanecem vivos.
Morrer é o ultimo dos estágios e o primeiro e único do fim de tudo.
Todavia, nada pior que a morte em vida, onde se opta pelas piores escolhas na existência, não cultivando nada, além de tristeza, desprazer, angustia e melancolia.
Se a morte é uma consequência irreversível, viver a vida é um conjunto de escolhas e opções as quais todos fazem com maior ou menor nível de consciência.
Melhor do que esperar por uma boa morte é transformar a vida de tal modo para que ela não seja cinza, inerte e tampouco vazia.
Logo, não se pode optar por fugir eternamente da morte, mas sempre será possível escolher as melhores opções para viver a vida.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Terna Loucura



Dizem que todos são loucos quando saem do padrão estabelecido,
Rejeitei todos os padrões e convenções, eu quero apenas o sabor da vida,
Não me importa se os outros não sabem conjugar o verbo Amar,
O que importa para mim somente é o tempo verbal entre você e eu.



Sou louco por desejar lhe fazer mulher
Quando o que você aprendeu foi ser uma dobradura em mãos alheias?



Sou louco na intensidade de lutar contra as injustiças
E decifrar todo o Mal que fez nos separar?



Sou louco por dedicar meu tempo a lhe fazer rainha de meus pensamentos
E ter tocado com todo carinho o seu corpo?



Sou louco quando ninguém se importa com ninguém
E me dedico a lhe proteger mesmo na distancia e debaixo de impiedosa tempestade?
 


Ninguém aqui é desconhecido,
Nossas mãos mapearam mutuamente nossos corpos,
Se toda loucura fosse o prazer de acolher e amar,
Esperar-lhe-ei ate o dia que enfim você acordar.



(14.06.2012 - 06:41:01)

sábado, 28 de julho de 2012

Permanência



Quando sua noite estiver em trevas,
Estarei aqui,
Quando seu dia estiver deixando o suor deslizar sobre sua testa,
Estarei aqui,
Quando seus pensamentos estiverem apertando com sofreguidão,
Estarei aqui,
Quando os demônios tiverem pressionando seu estômago,
Estarei aqui,
Quando a secura de sua boca pedir água no deserto da miséria,
Estarei aqui,
Quando saber dar mais valor a vida e as pequenas coisas ao redor,
Estarei aqui,
Quando suas mãos não mais sustentarem o peso da culpa e da ingratidão,
Estarei aqui,
Quando as mentiras perderem a força deixarem de atormentar a sua alma,
Estarei aqui...


Estarei aqui no luar e na intensidade solar,
Estarei aqui no cair da chuva e na estiagem do olhar,
Estarei aqui na tarde de frio e na noite vazia,
Estarei aqui no silêncio que amordaça e na ausência que tortura.


Na espera exaustiva que a nuvem negra que assola nosso paraíso,
Se dissipe na lenta marcha da claridade,
Onde poderemos retomar o nosso tempo perdido,
E todo o amor que nos foi roubado.


Estarei aqui até quando a mentira perecer,
Estarei aqui até quando a verdade começar a agir,
Estarei aqui até quando a vida fluir,
Estarei aqui até quando o tempo findar...

domingo, 17 de junho de 2012

Posfácio



Ao primeiro rato que abocanhou pedaços de minhas vísceras
recomendo que faça uma boa degustação,
pois nunca mais terá outra oportunidade de assim fazê-la.

Não se esqueça de contar para todo mundo sua façanha,
mesmo porque será a única coisa próxima de alguma glória
que fará em toda a sua desprezível existência.

Seus passos foram traiçoeiros e covardes,
mas saiba diabólico roedor com dissimulado verniz
que meus olhos são de águia e meu faro é de lince.

Você somente me enganou uma única vez
se aproveitando da minha guarda aberta
promovida pelo meu amor que foi corroído.

Talvez não acreditou, mas as ratoeiras são implacáveis,
estão sempre a espreita em locais onde você menos espera,
e nenhum roedor foge delas por muito tempo.

Para seu azar e para dar um basta nos seus truques,
agora sua cabeça sempre oculta ficou entalada
no arame frio e feroz da minha ratoeira.

Não mais ouvirei o barulho dos seus dentes triturando
pedaços do meu coração abatido e do meu fígado encharcado
com suas patas perambulando minha consciência. 

Saiba que tudo será recomposto no tanger do tempo
com o meu fígado regenerado e o meu coração refeito,
exceto você cruel rato que será apenas mais um cadáver
uma mera silhueta sob a lápide da ratoeira na minha história.   

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Chuva Negra




Quando o Demônio carrega-lhe com aquelas garras fétidas para longe de mim,
Uma chuva negra inunda todo o meu corpo,
Não sei se seus delicados dedos dizem adeus ou pedem ajuda,
Estou preso na escuridão e você se encontra vigiada pelos abutres,
O tempo castiga minha carne com a chibata da angústia,
Vejo a mentira perverter toda forma de realidade,
O banquete de serpentes envenenou-nos e conduziu-nos ao isolamento,
Estou encarcerado no calabouço do esquecimento,
Ao longe, ouço risos de hienas festejando minha dor,
A minha raiva consegue secar minhas lagrimas,
A saudade é a única coisa que me acompanha,
Agora, bebem do meu sangue,
Mas jamais terão a minha alma.