quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sedução de Berlim (A Nova Ordem)



 (Berlim, 1933; São Paulo, 2013)

* * *


Aos que rasgam e queimam bandeiras hoje,
Ojerizam o livre debate político e a clareza idearia,
Repudiam a pluralidade partidária e sindical,
Grunhem frases feitas de ação e emoção fálica,
Destroem património público e símbolos locais,
Incitam a banalização da violência e afronta a racionalidade,
Numa guerra total de todos contra tudo.

Lembre-se que amanhã começarão a queimar livros,
Humilhar e hostilizar pessoas em público,
Agredir a todos que não compartilham dos seus ideais,
Tolher a liberdade de pensamento alheio,
Aclamar com vigor o poder da enérgica força.

As falsas verdades ditarão normas certeiras,
Escreverão cartazes pedindo uma nova ordem,
Perseguirão tudo aquilo que destoa do movimento,
Encarcerarão a liberdade e quaisquer opositores,
Enquanto todos aplaudirão com sorrisos catárticos.

Quando a esperança é a violenta força,
Uma bandeira sempre é erguida,
Que tremula no céu cinzento diante de olhos fechados,
Das cabeças ventiladas por um pernicioso puritanismo,
Serão eles, os fascistas e seus admiradores ocasionais.

Ontem, hoje e enquanto houver aqueles,
Que acreditam que a insanidade é melhor que a lucidez,
Serão aqueles que levantarão uma nova bandeira,
Da sedutora opressão contra a dialogada razão,
Da morte heroica contra a vida emancipada.

Quem não estará na ação propulsora estará partido,
Fragmentado e órfão de causas e ansiedades,
A mão sequiosa da irracionalidade contra a força política,
A democracia se tornará então mais um verbete de dicionário,
A nova ordem se empunhará sobre olhares entusiastas da orfandade,
Quando alguém se der conta, já estará encarcerado.

A nova ordem começará com mentes fechadas e mãos unidas,
E terminará com corpos lacrados e maldades reunidas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O "Cansei" Popular



Tarifas de ônibus?... Que nada, o negócio é exorcizar nossos demônios!
Catarse, catarse e simplesmente catarse.
Da alienação passiva a alienação agressiva.

Aos que queriam colocar gasolina na fogueira, conseguiram seus objetivos.
Aos que queriam paz, ficou olhando a paisagem pedindo inutilmente para que os outros não destruam.
A sedução do descontrole corre pelas veias aturdidas e embriagadas: o êxtase ejaculador!
Aos que queriam queimar bandeiras, poderíamos também queimar roupas, corpos e neurônios.

Braços erguidos, palavras de protestos e queremos tanto, tanto, tanto... Queremos mesmo o quê?
Agora protestar é legal, tá na moda, pois antes era coisa de comunista filho-de-uma-puta, de vagabundo profissional ou de bicha tagarela!
Agora é diferente porque alguém disse que é um grande "barato" e pode ser curtido no Facebook.
Agora é tudo, sobre tudo, contra tudo, contra nada e eu "nada sei".
Contra os safados políticos, contra a safada política, contra a safada tirania, contra a safada democracia.

Odiamos a ditadura da mesma forma que odiamos a democracia (tudo é mesma merda!).
Não gostamos de política, não nos interessamos por eleições, nem abrimos os jornais e nem quero saber de nada. Odiamos quem gosta de política!
Acordei de mau-humor, somente quero protestar e mandar tudo para aquele lugar!
O médico safado, o professor safado, o motorista safado, o patrão safado, o político safado, o policial safado...
Tanta gente safada, mas eu sou legal!

Xingarmos a mulher, o marido, o pai, a mãe, o filho, a família, o cachorro, a amante, o garoto de programa e a puta do bordel.
A direita sorri, incentiva e aplaude. A esquerda se perde sozinha.
Pode-se escolher entre ir para balada ou ir a algum protesto da "tribo" do momento.
Pode-se fazer o mesmo que se faz após encher a cara e destruir tudo pela frente, depois na balada, seja no volante, seja na mão.
Pode-se dar ou aceitar aquele suborninho, que ninguém vai ficar sabendo (tudo em surdina!).
Dos pacíficos revoltos aos pirotécnicos que ateiam fogo e gozam vendo circo se consumir em chamas.

Pra que ter norte se preferimos ter um país desnorteado?
Pra que ideologias se a força resolve tudo, seja na porrada, ou na pedrada?
Pra que programa político se o que traz barato é apenas reclamar para que o outro pense e resolva minhas demandas?

A força policial e a força dos boçais se unem em confraria para a festa da democracia às avessas comemorando o "jeitinho brasileiro".
A culpa é de quem?... De tanta gente!
A culpa é da polícia, culpa dos políticos, culpa da TV, culpa da internet, culpa do atacante que não fez o gol, culpa da sogra, a culpa é de todos e a culpa é dos outros (somente não é minha culpa, é claro!).
Alguém tem que levar a culpa de nossas próprias mazelas, oras? Que sejam os outros!
O bom cidadão, que vive calado, responde tudo calado, aceita tudo calado, mas se conforma no bar, no trago do baseado ou assentando a mão em alguma mulher.

Quando se é pobre, vive enlatado no trânsito, massacrado no trabalho, mágico no salário...
Quando se é classe remediada, vive se endividando até os tubos para manter as aparências e causar inveja na vizinhança.
Quando bêbado, o ilustre cidadão infringe as leis de transito e fica todo enfurecido se o viado do policial não aceitar os mirreis que o infrator irá lhe oferecer.

O pau não levantou? A culpa é da Dilma.
A mulher chifrou? A culpa é da Dilma.
A comida queimou? A culpa é da Dilma.
O leite esfriou? A culpa é da Dilma.
Não tirou boas notas na escola? A culpa é do burro do professor e da Dilma.
Não consegui pagar enésima prestação daquele carro que mal tem dinheiro para colocar gasolina? ( Putz, ai é culpa da Dilma de vez!)
Tudo é culpa da Dilma... Ah, esta mulher! Quem manda votar em mulher?

Mais de quinhentos anos de mazelas, e agora que este grupo vermelho chegou ao poder, não conseguiu consertar tudo de uma vez? Desbotou-se?
Quanto pior, melhor! Quero meu colírio entorpecente da alegria!
Poderia ser uma trepada no motel, mas foi uma coisa assim, sei lá, foi um protesto, meio sem jeito, mas foi, foi chegando, chegando e chegou à apoteose no meio da praça...
Na verdade nem sei por que estava no meio da rua, mas tudo bem, mas é ”mô” barato.

Que delírio mágico!
Saímos para as ruas, para gritar, para xingar, para protestar, dizer que existimos e...
Que depois vou tomar meu clonazepam para esquecer que eu existo!

A Pós-Modernidade é um liquidificador a todo vapor.

Pobre Brasil, de uma elite perversa e uma população que se mantém alienada...
Agora não mais passivo como outrora, subimos de categoria: da alienação barulhenta.
Agora o gigante soneca acordou do seu sono de Cinderela dos Trópicos!
Agora o gigante vai virar pós-adolescente com um comprimido de Viagra em uma mão e um outro comprimido de Retrovil na outra mão.
Já pode assistir filme pornô pagando meia-entrada no Cine Orion.
O Brasil já sabe ler: C-A-I-X-A (Poderá sacar uma graninha do FGTS).

O CANSEI POPULAR brasileiro é assim, muita energia, orgasmos múltiplos e um vazio existencial profundo.

(Na ressaca da democracia, o último que sair, recolha os estilhaços de vidro, apague a luz e feche a porta!)





sábado, 8 de junho de 2013

O Lugar de Retina



A Arte da Vida esta em consumir todas as possibilidades,
Distinguir os caminhos da verdade e dos enganos,
Desviar das pedras e falsos atalhos,
Não se iludir com os sorrisos da maldade e abraços de vampiros.

 

Compreender que a generosidade não se deve,
Confundir com a deletéria ingenuidade,
Sentir a dor escorrer sem nenhum corte,
E estancar toda esta fluidez com a energia da percepção.

 

Não esquecer que a honestidade de consciência,
É um bem que raramente as outras pessoas dão algum valor,
O espelho não deve ser visto como a paixão pela vaidade,
Mas um apoio unívoco para a autoanálise.

 

A sinceridade para si será melhor,
Que ouvir a suposta sinceridade de muita gente,
E o isolamento em demasia somente faz
Crescer a barba, cegar os olhos, travar os ossos e encurtar as idéias.

domingo, 7 de abril de 2013

Diante da Tempestade



Querida, hoje sei que a verdade não está lá fora,
Talvez a ansiada verdade até demora,
Até chegar ao seu coração que a realidade ignora,
Não há prazo derradeiro para tanta distância agora.

Querida, seus anseios eu sei tão bem,
Seus medos já foram tão manipulados,
Os seus olhos foram tão marejados,
Que tanta dor possa sair do seu coração.

Eu sei que o amor está aprisionado,
Eu sei que a maldade levou sua coragem,
Eu sei que nada parece valer a pena,
Tantas palavras foram levadas pela tempestade.

Querida, nossa história não poderia ser assim,
Cortaram nossos laços com tanta crueldade,
Disseminaram o ódio só para nos perder,
No interstício entre o Céu e o Inferno.

Nada poderia ser dito sem alguma razão,
Todas as palavras foram transmitidas para o seu olhar,
Não se afugente na escuridão agonizante da alma,
Sempre lhe quis para bem além do que você imaginou...

Gostaria que não aceitasse tão passivamente,
O calabouço inglório do destino ingrato,
Temos ainda muito a dizer, sentir e viver,
Por que perder mais tempo com a destemperança da maldade?

Sei o quanto o seu coração foi castigado,
Boa parte disto eu levei toda a culpa pelo infortúnio,
Sou inocente e jamais fui concedido uma única defesa,
Réu à revelia, tanta injustiça que magoa e empalidece minha alma.

A mentira cegou a luz ingênua dos seus olhos,
As falsas palavras e as situações sabotadas,
O veneno amargo que calou seus lábios,
E contaminou a esperança de dias mais significativos.

Sou como o cavaleiro que cumpre o destino,
Levar a verdade é uma arte que sempre fatiga e castiga,
Levar o amor sempre afastado pelas mãos do demônio,
Trazer a luz para que novamente brilhem os seus olhos.

O tempo escorrega lentamente para fazer nos enganar,
Tantos sortilégios impiedosos foram para agredir e maltratar,
Não deixe que tanta perversidade abale o nosso destino,
Saiba que o meu amor continuará o mesmo até o ultimo cair do crepúsculo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Aconchego





Venha percorrer nos meus lábios,
Como uma revoada de pássaros.

Para o degelo desta madrugada,
O calor que tanto carecemos nesta jornada.

Que acenda esse desejo tão presente,
De tantos desenganos, a alegria se faz ausente.

Não deixe de lado ou para o além,
O que o destino nos concedeu tão bem.

Esqueça aquela dor de outrora,
Venha marcar a minha boca agora.
 

Abrace-me com esses lábios que me faz lembrar a paixão,
Venha repousar o seu corpo com doce tranquilidade,
Descanse em meus braços sem medo ou hostilidade,
No livre desejo de nossa união.
 

Que o aconchego que nos faz falta e castiga aos poucos,
Seja o aconchego que nos una e nos faz únicos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Percurso





Corro das trevas,
Sem a esperança de voltar,
Quem dera que não fosse verdade,
Mentir para que a falta não se faça imperativa.


Corro do ódio,
Sem o desejo que me contamine,
A serpente que segue meu destino,
Azucrina sem demora meus pesadelos.


Corro da vingança,
Sem a vontade de matar,
Fraquejo e isto me faz tão miúdo,
Fortalece o inimigo tão visceral.


Corro da mentira,
Sem a verdade bater a porta,
As mãos calejadas estão vazias e abertas,
A saliva demoníaca realiza insuportável sangria.


Corro da realidade,
Sem olhar no retrovisor,
Impactos marcados na derme,
Vontade que semeia infértil na boca.


Corro da vida,
Sem querer balbuciar a dor,
Endógenas feridas no leito do corpo,
Abutres velejam sorrateiros no horizonte.


Corro da morte,
Sem acreditar que a terra úmida é o destino,
Tantos pensamentos soltos e nenhuma certeza,
A covardia dos afiados punhais a todo vapor.


Corro da solidão,
Sem saber ao certo como retornar,
Olhos abrem e fecham e nada é identificado,
Os demônios operam entre a moita e a neblina.


Corro de mim,
Sem a esperança de voltar ao que era,
Queria uma chance para repor o que nos roubaram,
O destino é a lápide que conforta nosso silêncio.


Corro da lembrança,
Sem saber se irei lhe esquecer,
A maldade sempre avisa o quanto ainda atormenta,
A alegria se foi e a verdade é uma flácida ilusão.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Afano Amoroso





Roubaram nosso tempo e a nossa história,
Afanaram abruptamente as nossas possibilidades,
Mentiram sem remorsos e tampouco foi lembrado o uso da piedade,
Para que nunca mais nos encontremos num único espaço.


Que outrora foi nosso momento de devoção,
Hoje é apenas distância e devastação...
O tempo congelado desde o nosso último abraço,
Triste desencontro daquele beijo de "até mais tarde"...


Hoje os demônios cruzam os céus com seus uivos melindrosos,
Enganaram seus olhos com a mesma facilidade que zombaram de minha índole,
Eu sei que nada foi em vão, mas ainda assim tudo foi insuficiente...
O seu ódio é tão nítido quanto a secura expressa em minha boca.


Não sei mais como lhe dizer nem como despertá-la do seu sonambulismo,
Nem ao menos sei como tudo isto pode de fato ter acontecido,
De algo tão natural e puro, sem os velhos vícios,
Afastaram de mim toda a doçura e o perfume que exalava do seu coração.


Lembro-me do seu beijo como se fosse ainda agora,
Mas já se passaram tantos dias, noites e estações climáticas,
Tanto tempo foi-se em vão nesta jornada infernal,
Somente o desengano povoou nossa constelação solitária.


Ouvi as mais densas provocações,
Perdi as mais inteiras noites,
Corri todos os possíveis riscos,
Nem ao menos você conseguiu abrir os olhos.


A cegueira que nos afasta injustamente,
O cálice de veneno que contaminou o seu corpo,
A sua alma enclausurada de medo e insegurança,
E todas as mentiras foram jogadas contra mim...


Se por um momento, Deus me presenteou com seus olhos,
O Diabo conseguiu afastá-los de mim,
Se tudo foi matreira coincidência ou fastidioso destino... Eu não sei,
Apenas sinto agora tão somente o preço que há na saudade.