sábado, 14 de abril de 2012

Acalanto



Da manhã se formou uma expectativa,
Da tarde se formou uma espera,
Da noite se formou uma tragédia,
Da madrugada se formou uma insônia.


De tanto amor sobrou-me apenas a rima,
De tantas palavras sobrou-me um livro,
De tantos pedidos sobrou-me uma desistência,
De tanto querer sobrou-me um desencanto.


Da virtude brindou o vício,
Da vanguarda restou a mesmice,
Da luta respingou a inanição,
Da elegância bastou a falsidade.


Da verdade negada,
Da conversa esquecida,
Da mulher lacrada,
Da paixão confiscada.


Dos desejos sufocados,
Dos caminhos destelhados,
Dos laços cruzados,
Dos olhares fechados.


Das mensagens inaudíveis,
Das angústias vertiginosas,
Das horas incompletas,
Das verdades desencontradas.


De mentiras sem lastro,
De atitudes sem nexo,
De palavras sem voz,
De dores sem fim.


A sua fuga é medo.
A sua incoerência é perplexidade,
A sua lucidez é ingênua,
A sua boca é oásis.


A minha noite é dia,
A minha sangria é rio,
A minha alegria é fosso,
A minha boca é deserto.


A nossa presença é ausência,
A nossa solidez é fractal,
A nossa lembrança é silêncio,
A nossa paixão é solidão.

Um comentário:

Márcia Cristina Garcia disse...

Gosto de como escreve.
Você me diz muito, porque me identifico com seus pensamentos.
Márcia