terça-feira, 17 de agosto de 2021

A espera

 

Poderá passar o tempo que for...
Esperarei você da mesma forma que eu espero hoje.
 
Poderá a vida querer sabotar todas as nossas forças,
Poderá o tempo jogar lágrimas em nossos semblantes,
Poderá a luz buscar enegrecer os nossos olhos,
Poderá o destino insistir em nós afastar,
Poderá o silêncio querer sufocar nossas vozes,
Assim mesmo, irei esperá-la até o fim...
 
Até o inverno passar,
Até a tempestade se acalmar,
Até a doença que castiga o mundo encontrar uma cura,
Até todos os fantasmas da sua fantasia forem sepultados,
Irei peregrinar sem descanso até o último refúgio,
Aonde possa esconder a esperança em algum submundo,
Estarei a sua espera com todo o meu amor.
 
Assim, diante de toda a realidade sufocada,
Quem sabe, poderemos ser um pouco mais felizes,
Da espera do encontro ao encontro da esperança.
 
O tempo que nos rouba o entrelaçar dos dedos, a paz e a tranquilidade,
Enfim, será o tempo em que reinará a nossa liberdade.

O novelo e o labirinto

 

Não sei mais,
Quais as palavras que atinam a sua razão.
Não sei mais,
O que dizer além de tudo o que foi dito.
Não sei mais,
O que fazer além de tudo o que foi feito.
 
Quantas mágoas desnecessárias, Descompensaram o ritmo do  coração?
Quantas adagas mal afiadas,
Perfuraram a cristalina confiança?
Quantas lágrimas errantes,
Cortaram os nossos semblantes?
 
Como posso aceitar um desígnio tão ingrato?
O que fazer quando o seu pedido é o labirinto do afastamento?
O que pensar quando a regra é só ceder na discórdia de imediato?
O que sentir quando a distorção eruptiva e injusta veleja em seu pensamento?
 
Por amor eu respeito o acordo imposto insensatamente,
Por amor eu guardo a dor fingindo que ela não exista realmente,
Por amor eu me recolho sob os escombros do tsunami que nos acertou com maldade,
Por amor eu aceito o seu último desejo e engulo a lágrima da saudade...
 
Não fujo ou nego a verdade,
Não desvirtuo a realidade,
Nunca soneguei o meu calor,
Nunca quis lhe causar alguma dor.
 
Aceito cabisbaixo a cruel penitência,
O silêncio que queima lábios e dedos,
Não sei o razão para tamanha impotência,
Que crime tão nefasto é o amor sem segredos!
 
Não sei mais quando seus vocábulos dizem a verdade,
Não sei mais o que o seu coração clama,
De tanto amor, o que reina hoje é a infértil deslealdade,
A razão partida e o desejo que reclama.
 
Pode o mal vagar para nos afastar com espanto,
Pode a fantasia achar que venceu o jogo de destrutiva alucinação,
Nada é para sempre no universo do desencanto,
Os dias escoam e a tola saudade ainda acredita na reparação.
 
Quando a sombra desenlaça a dor sentimental,
A saudade ainda mimetiza a parcimônia do estiolar de um vegetal,
A realidade descortina-se em um labirinto de pesadelo,
A vida que pensava ser linear se transforma em novelo.


Fique no meu lugar


 
Não sei o que o destino está fazendo conosco e com tanta maldade,
Não sei o que espera por nós diante desta tempestade,
Não sei mais o que fazer para tentar lhe convencer,
Que só dentro do meu abraço você irá se proteger...
 
Fique no meu lugar,
Sinta o meu mal-estar,
Olhe atenta para o luar,
Veja aonde você quer chegar...
 
Não sei o que fez você mudar tanto assim,
Não sei o que fez sua mão se soltar e ficar distante de mim,
Não sei o que está acontecendo com a nossa história,
Só sei que do jeito que está não se pode viver apenas na memória...
 
Fique no meu lugar,
Sinta o meu mal-estar,
Olhe atenta para o luar,
Veja aonde você quer chegar...
 
Não sei o que fez seus lábios descolarem dos meus cheios de emoção,
Não sei o que fez seu olhar se turvar nesta sua escuridão,
Não sei por qual razão você não escuta tantas palavras que gritam sobre o amar,
Estou triste e cansado de tanto lhe chamar...
 
Fique no meu lugar,
Sinta o meu mal-estar,
Olhe atenta para o luar,
Veja aonde você quer chegar...
 
Não sei o que faz você ficar tão dispersa e ausente,
Não sei mais despertar o seu olhar para o presente,
Não sei o que fazer para buscá-la diante do seu voluntário deserto,
O tempo não cura as dores de um peito aberto.
 
Fique no meu lugar,
Sinta o meu mal-estar,
Olhe atenta para o luar,
Veja aonde você quer chegar...
 
Não sei mais quais as palavras para fazer você acordar,
Dizer que até o amor se cansa de tanto esperar,
Queria tanto compor uma singela canção,
Que faça tocar tão intensa no seu coração.
 
Fique no meu lugar,
Permita-se ouvir o clamar,
Observe a vida lhe avisar,
Veja aonde você quer chegar...
 
Fique no meu lugar,
Sinta o meu mal-estar,
Olhe atenta para o luar,
Veja aonde você quer chegar...

 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Prece


 
Senhor que me conduz,
Senhor no alto da cruz,
Senhor que a tudo produz,
Senhor que é fonte de luz.
 
Santíssimo, vigie os meus passos,
Proteja-me dos percalços,
Oriente o meu caminho,
Senhor, não me deixe sozinho.
 
Santíssima seja a sua presença,
Na vida sadia ou no penar da doença,
Faça-me instrumento de sua Graça,
Guarde-me para que nada aconteça.
 
Santíssimo, não peço-lhe muito,
Sou pecador, pois bem sabe que não sou perfeito,
Sou o seu trabalho generoso, mas sou tão imperfeito,
Curvo-me diante do Senhor e fico satisfeito.
 
Na labuta dos dias sem orientação,
Uma angústia que invade o meu coração,
Levanto minhas mãos em sua direção,
Que minha fé seja merecedora de sua atenção.
 
Senhor, estou ao pé da cruz,
Senhor que a tudo conduz,
Senhor que a dor reduz,
Senhor que o amor induz.
 
Na treva peço-lhe sua mão,
No vazio peço-lhe sua compaixão,
Na tristeza peço-lhe consideração,
Na agonia peço-lhe perdão.
 
Senhor que me conduz,
Senhor no alto da cruz,
Senhor que a tudo produz,
Senhor que é fonte de luz.
 
Que o Seu sofrimento não seja em vão,
Que a paz prevaleça em terreno instável,
Que o entendimento seja a regra possível,
Que o Amor Maior toque em cada coração.
 
Senhor,  estou ao pé da cruz,
Senhor que a tudo conduz,
Senhor que a dor reduz,
Senhor que o amor induz.
 
Que os dias que escurecem o meu olhar,
Sejam iluminados por Sua divina bondade,
Que possa esvair o meu penar,
Sob a força da doação e caridade.
 
Senhor que me conduz,
Senhor no alto da cruz,
Senhor que a tudo produz,
Senhor que é fonte de luz.
 
Santa Maria, mãe da Luz,
Santo Pai que nos conduz,
Rogo aos Céus que a tudo produz,
A Paz na Terra aos pés da cruz.
 
Santa Maria, abençoada seja a sua Luz.
Santo Pai, glorificada seja a sua benção que conduz,
Seja o Amor a fonte que produz,
A Paz na Terra aos pés da cruz.
 
Senhor que me conduz,
Senhor no alto da cruz,
Senhor que a tudo produz,
Senhor que é fonte de luz.
 

domingo, 13 de junho de 2021

O silêncio é castigo



Diante do seu silêncio que castiga,

Nada, nada disso se justifica!

Quem sempre lhe estendeu a mão,

Agora vive nesta ingrata solidão. 


A tristeza que me abate,

Conduz uma angústia pulsante,

Dias sem sabor em turvo horizonte,

A saudade oprime numa espera estafante.


Há muros que nos afastam,

Há equívocos que nos dividem,

Há posturas que nos maltratam,

Há rumos que precisam ser corrigidos.


O silêncio é como uma floresta fechada,

Densa e sem espaço para movimentação,

Um medo que exala do seu interior,

Um atroz pavor que macula o coração.


Viver a vida é abrir mão da vaidade,

É preciso o olhar atento no espelho, 

É necessário reconhecer a própria esfinge,

A tática da distância não ajuda a atingir a verdade.


Não se cultiva o amor,

Sufocando a sua existência,

As mãos procuram os dedos com clamor,

O silêncio faz nutrir a sua resistência.


Por que silenciar se as boas palavras,

Tem frutos adocicados para saciar a fome e os medos?

Caminhos que precisam fazer contorno diante das pedras,

Abraçar a confiança entrelaçando os dedos.


Somos dois, mas podemos ser tão únicos,

Unidos na fé e no amor como guia,

Sem alimentar fantasmas que nos deixam fracos,

A tristeza se banhará em felicidade neste dia.


Somos dois, mas podemos ser tão singulares,

Unidos na certeza que o futuro só dependerá de nós,

Sem acreditar na fuga refugiada no silêncio atroz,

Somos dois, mas juntos podemos ser maiores!


Enfim, a verdade e a justiça não podem ser enjauladas.

As palavras precisam ser desembrulhadas, 

As palavras não podem ficar emudecidas,

As palavras carecem ficar esclarecidas.



domingo, 31 de janeiro de 2021

Enganos pétreos, verdades indigestas


É fácil criticar sem compreender,
Difícil é usar a compreensão para agir.

É fácil falar o que não se sabe,
Difícil é dizer observando todas as consequências.

É fácil prometer o que não pode ser cumprido,
Difícil é cumprir o que é possível e ainda ser apontado como insuficiente.

É fácil correr, fugir e se esconder do que incomoda,
Difícil é se manter íntegro e caminhar, mesmo à contragosto.

É fácil pedir apenas palavras palatáveis,
Difícil é dizer o que é indigesto e sabendo que irá contrariar o outro.

É fácil fechar os olhos e culpar quem o nariz apontar,
Difícil é reconhecer erros e buscar reconstruir a rota que estava equivocada.

É fácil pedir ao outro para ser amado.
Difícil é ter o mérito para que este amor possa existir.

É fácil magoar o outro por qualquer banalidade,
Difícil é compreender que a vida só é verdadeira quando se passa por cima de qualquer bobagem.

É fácil se esconder da verdade,
Difícil é se manter por muito tempo no esconderijo sem que o medo não assombre a mente.

É fácil trocar os corpos como se fossem objetos inanimados descartáveis,
Difícil é cativar um único corpo diante de tantas oferendas circulantes.

É fácil recitar o canto dos cisnes somente para, gratuitamente, agradar ouvidos ingênuos,
Difícil é dizer o que precisa ser dito e saber que não será agraciado com a dádiva da compreensão.

É fácil se prender à alegoria de mágico passado da ilusão narcísica,
Difícil é aceita que precisa mudar o panorama de uma pétrea realidade.

É fácil dizer que está celebrando a maturidade,
Difícil é entender que o tempo, sem uma vigorosa reflexão, é apenas um acúmulo de calendários vencidos.

A facilidade dos métodos fortuitos,
É sempre um convite para o autoengano,
A aspereza das dificuldades incomoda em demasia,
No entanto, nada deve ser negligenciado.

Há o certo,
Há o errado.

Há a vida,
Há a morte.

Há a escuta,
Há a negação.

Há o início do fim,
Há o fim do início.

Há um caminho,
Há um equivoco.
Há escolhas voluntárias,
Há derrotas igualmente voluntárias.

Viver a cultivar o sono das trevas,
Viver a cultivar a iluminação da razão.

Escolhas geram outras escolhas,
A coragem e a covardia são pulsões siamesas, 
Uma deverá prevalecer sobre a outra,
Uma vida sem medo ou a sobrevida oxigenada por autoenganos.



terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Elipse da Alma


Dia após dia,

Noite após noite,

De silêncio em silêncio,

De orgulho em orgulho,

De menosprezo em menosprezo,

Tudo o que temos irá acabar...


O dia acaba,

A noite acaba,

A energia acaba,

A beleza acaba,

A fragrância acaba,

A força entre os dedos,

A alegria e a tristeza acabam...


Sim, definitivamente, tudo se acaba!

Inclusive, o outrora e irredutível Amor,

De quem se entrega,

De quem pega na mão,

De quem carrega no colo,

De quem afaga a alma,

De quem aquece o coração,

De quem se dedica,

E não é valorizado!


Um dia, a própria vida acaba,

A primavera se recolhe,

O canto dos pássaros emudece,

Os sonhos se desfazem,

A pele perde a rigidez,

O cabelo perde a naturalidade,

Um vazio tão grande poderá tomar conta,

E nada neste mundo de ingratidão,

Será capaz de preenchê-lo.


De silêncio em silêncio,

Cava-se um abismo,

Tão denso, claustrofóbico e profundo,

Entre a vida e a morte,

Entre a fluidez da alma

E a amargura sem fim.


De silêncio em silêncio,

Iremos para o mesmo lugar,

Um frio gélido ecoará nos ossos,

Olhos opacos e tristes,

Corpos abandonados sem luz,

Terra que se faz de cobertor,

Vidas deslizadas pelo ralo.


O Amor não é para os fortes,

O Amor é para quem tem leveza,

A sensibilidade não rima com tristeza,

E ergue uma hercúlea fortaleza,

Não para silenciar, açoitar ou aprisionar,

Mas se parecer como uma reza,

Para acolher a alma que precisar.


Há momentos que o silêncio, 

Poderá ser o ouro de tolo,

Em outros, não passa de puro fel,

No entanto, o silêncio não diz nada,

Não ergue, solidifica ou constrói nada,

Apenas se omite bem passivo na vida,

Para se consolar na terra infértil da morte.


De silêncio em silêncio,

No martírio da vã ilusão,

Morremos um pouco a cada dia,

De insensatez e falta de partilha,

Uma lágrima que rouba a alegria...


Sem o Amor para brindar a vida,

Tudo fica seco e sem germinação,

Um eclipse envolve a alma,

E amordaça o pulsar do coração.


Escolhas são escolhas,

Livres como a queda de folhas,

Uns escolhem a aventura do viver,

Outros se contentarem em se perder.