sexta-feira, 30 de maio de 2008

Lua Negra


Na noite dos afazeres soturnos,
Lá no alto, ronda em sigilo,
Como estivesse se escondendo,
Lua negra sem brilho.


Não concebe um lírico pesar,
Rompe as noites para um olhar introspectivo,
Desliza na cama sem encontrar abrigo,
Lua negra sem descanso.


Do leito, um formigueiro emerge nas pernas,
Um vazio lacônico sem explicação aparente,
Pressiona a cabeça sobre o travesseiro,
Lua negra cheia de ecos.


Uma agonia trazida por rompantes,
Bem e Mal se confundem sem nexo,
Alegria e tristeza se mesclam de maneira histriônica,
Lua negra sem rumo.


Na aparição dos dias sem claridade,
O claro se desvirtua no escuro,
Os olhos se fecham entre pálpebras,
Lua negra escondida atrás da porta.


O calor que não aquece toda a frieza regurgitada,
O calendário virando páginas à marteladas,
Os incômodos pensamentos são transeuntes que adentram a noite,
Lua negra que vive burlando o coração.


As palavras caídas ao chão,
Como folhas e gravetos secos no outono,
As mãos trêmulas que não acalma uma primavera,
Lua negra tateando no invisível.


Na noite dos olhos sem direção,
A solidão do Amor incontido,
As geleiras que falsificam a mítica auto-sustentação,
Lua negra sem paradeiro.


As palavras que são bloqueadas cegamente,
Sentinelas kamikazes que não permitem uma aproximação,
Cada vocábulo trancafiado sem tribunal,
Lua negra desnorteada de tamanha paralaxe.


No esquivo da saudade crua,
Na constante fuga marchada dentro de si,
Ouvidos congestionados de falsos humores,
Lua negra embriagada de digressões cutâneas.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Marília sem impressões


Quando a distância,
Torna-se um imperativo,
A saudade tem sempre algo a dizer,
Sonhos e desejos guarnecidos no peito.


O caminho é longo e tedioso,
Uma estrada que parece não ter fim,
Pardinho, Lençóis Paulista, Bauru, Garça...
Enfim, 448 quilômetros depois, a Marília cidade!


Ruas largas de povo quase exíguo,
Há situações onde deixamos à vontade e a coragem velejarem,
Não hesitar com a solidão dos livros,
Não ranger os dentes no calor de outrora.


A vontade presente,
Mesmo na trilha adversa,
Caminhar quando ceder é sempre mais fácil,
Acreditar mesmo não sendo algo palatável.


Sinalizando a escrita,
Palavras saltadas como cata-vento,
Nos trilhos desertos de Marília,
Trafegam nas vias de um inquieto tédio.


Diante da mesa já decomposta,
Um noticiário qualquer na televisão local,
A noite cai silenciosa e lenta,
Na morna cidade do interior.


Terminal decadente com cara de Dom Pedro paulistano,
O camelódromo é igual de qualquer lugar,
Avenidas com trânsito rápido e fácil,
Marília, uma cidade fluída.


E na rodoviária de vazio sonolento,
Arquitetada de um gosto duvidoso,
Cidade grande sem destaque,
Marília de curta saudade.


Na estrada sem fim,
Um frio se mesclando com a escuridão,
Pensamentos na velocidade dos pneus no asfalto,
Marília, já ficou para trás.

domingo, 25 de maio de 2008

Imortalidade (Cântico do Fim dos Dias)


Quando todos pareciam mortos,
Surgiu o Diabo para dar mais um sopro de vida,
Contrariando a vontade de Deus e deixando o Céu em polvorosa,
A carência de almas a bajularem os santos já se sentia efeito.


Velhos, mulheres, moços, bêbados, corruptos, assassinos e trôpegos,
Todos ganharam multiplicidade dos dias sobre a Terra,
Eufóricos com o renascimento repentino,
Começaram a agir de forma insaciável.


Quem sempre tinha sido bom, transgredia,
Quem sempre tinha sido mau, continuava a transgredir,
A orgia fanática e frenética dos dias incomensuráveis,
A clivagem degenerada dos desejos pulsantes.


O Bem e Mal eram banalidades do passado,
Agora todos sentiam a leveza da imortalidade,
Toda trindade sacra virou bobagem,
Narciso e Sade comandavam os ritos de alforria.


A liberdade jorrava entre pulsões, gozos e estupros mal consentidos,
Uns espancavam, outros cuspiam e os demais assistiam,
Ninguém mais trabalhava e sequer ninguém cuidava de mais ninguém,
Afinal, para quê viver se ninguém iria mais morrer?


Na Terra agora ninguém mais morreria ou temeria punição divina,
Ninguém mais produzia e tampouco amava,
Adeus, Apocalipse! Agora não mais existiria o fim dos tempos,
Apenas o infinito saciar dos desejos narcíseos e selvagens.


Deus e o Diabo começaram a ficar preocupados,
Fizeram uma reunião de emergência com a cúpula dos dois mundos,
Imediatamente, o Diabo com sua esperteza milenar argumentou sua ausência de culpa,
Em letargia, Deus furioso também não sabia o que fazer para contornar o drama.


O Céu e o Inferno se reuniram em intenso debate,
Santidades e demônios acusando-se uns aos outros,
Milhares de anos de ajustes de contas pendentes,
Ninguém tinha razão: insultos e agressões continuavam a prosseguir.


Até que decidiram enviar um anjo para a Terra,
O mais novato de bom coração foi escolhido para a missão da salvação,
O anjo com orgulho aceitou a empreitada prontamente,
Despediu-se de Deus e do Senhor das Trevas e seguiu para longa viagem.


Ao chegar ao destino, sentiu que a tarefa seria mais árdua do que parecia,
Tentou se aproximar de algumas pessoas e foi logo banido,
Chegou perto de um ancião e foi recebido com agressão,
Um edema no rosto e um filete de sangue escorria pelo canto da boca.


A jornada continuou sem cessar a batalha pelo coração dos homens,
Reuniu um pequeno grupo de crianças e começou a lhes ensinar as Escrituras,
Uns poucos o admiravam, outros foram embora,
Sem medo ou cansaço, o anjo continuava sua missão sem hesitar.


Dias de tanto exaltar o Amor, uns já começaram a se sentirem incomodados,
Estas coisas de respeito ao próximo e sentimentalismo não lhes faziam sentido,
E reuniram-se para dar cabo à situação,
Se a vida é eterna, para quê pregar Paz e Amor?


Um grupo furioso decidiu ir atrás do anjo,
Cada um dos descontentes munido com um objeto agressor,
A malta se avolumava na medida em que marchavam ecoando insultos,
O desejo de praticar a morte era nítido em cada olhar revoltado.


O anjo foi avisado por uma criança sobre a evolução do motim,
Desesperado, suplicou a Deus para resgatá-lo daquela tragédia iminente,
Do Céu surgiu uma alva pomba com um recado do Senhor,
A missão era para ser comprida e, cabisbaixo, o anjo silenciou.


Após muitas buscas sem sucesso, o anjo foi encontrado pela malta,
Todo sortilégio de agressões foi emanado,
Caído ao chão, o anjo não mais respirava,
A multidão encharcada de sangue da vítima ficou estagnada diante do corpo,


O silêncio fúnebre encobriu toda a Terra,
De repente, um estrondo colossal rompeu dos Céus,
De brilho intenso, Deus e o Diabo chegaram ao solo terreno,
A malta ficou extática diante do acontecimento.


Deus aproximou-se e recolheu o corpo dilacerado do anjo,
O Diabo ajoelhou-se e era possível ouvir o balbuciar de uma prece,
Uma lágrima correu da face das duas faces míticas,
Enfim, Deus e o Diabo estavam do mesmo lado.


A perplexidade da malta se ampliava cada vez mais,
Sabiam então que a coisa já tinha passado de todos os limites imaginados,
Deus com infinita dor, abraçou o corpo do anjo e partiu dando as costas para todos os humanos,
E seguido pelo Diabo, desapareceram sob intensa e ofuscante luz.


Depois daquele dia de morticínio e trevas,
Homens, mulheres e crianças voltaram subitamente a morrer,
A imortalidade tinha acabado e a Morte também voltou a fincar seus pés,
Até o dia do último homem a pisar sobre a Terra.


No fim dos dias,
A guerra celestial findou sem proclamar vencedores,
Nem Deus ou Diabo e tampouco o Amor ou a Morte,
Tudo foi semeado de desolação e deserto sobre a Terra.


sábado, 24 de maio de 2008

Inverno Afásico



No destempero das horas exaladas,
Na alta procissão da madrugada,
Entre o silêncio e o vazio,
Tudo parece imerso em sonambulismo.


O sangue que hoje coagula,
Ontem, nutria a seiva do seu semblante,
Onde era dominado pela alegria,
Hoje só há espaço para a afasia.


No crivo da madrugada sem dentição,
Deixando marcas indeléveis na alma,
O frio domina os dias de inverno,
A voz se congela sem emitir eco.


Na ausência das palavras petrificadas,
Os dias saltam como páginas se transformando em décadas,
Diante do espelho o registro de fios deserdados da cabeça,
E a sensação presente do consumo da alma sem alívio.


Não há noite sem pesadelo que não oprime,
O frio calcifica os dedos e dificulta a escrita,
Transcrever dilemas ou recitar uma ópera,
A enigmática platéia sem espectadores.


Com o lápis dos dedos e as pálpebras cansadas,
O pensamento sem encontrar morada,
Encontrar as palavras exatas que possam alcançar,
O toque singular diante do eclipse de sua alma.


O inverno adormece o corpo,
Uma letargia que atrofia os joelhos,
As articulações teimam em se rebelarem,
Os passos são inseguros e a ansiedade permanente.


No resto de noite sem brilho,
Busco os vestígios da trilha de sua fuga,
Um caminho cheio de neblina, neve e granizo.
Os lábios trincados acompanham na estrada.


Os poucos raios de Sol ficaram reféns dos anseios,
As palavras se fecharam com receio do tempo,
A angústia calou o entusiasmo tolhido,
O inverno celebra a desunião sôfrega dos lábios.

Pandora


Quando portas e janelas se fecham,
A brisa suave da manhã não corre para dentro,
O ar se torna mais rarefeito,
A luz não toca na devida forma.


O silêncio do quarto fechado,
A assepsia incomoda dos objetos,
O quadro retirado da parede,
A ausência da fotografia.


Sem razão aparente, os lábios secam,
A garganta forma um pequeno nó,
Como um êmbolo pressionando o estômago,
O coração a todo o momento sendo suprimido.


Entre o corredor vazio,
Do sofá da sala para a cozinha,
O cotidiano derretendo os dias,
Nenhum azul adentra entre os filetes da janela.


Certo ou errado, o que foi feito,
Não foi palco de certezas canônicas,
As palavras quando são lacradas,
Perambulam soltas e pálidas pelo tempo.


No chuveiro, as gotas caem como se fosse uma longa tempestade,
Como se a alma necessitasse ser purificada,
A dor que nunca passa ilesa,
Lágrimas se confundem com as águas do banho.


O Amor que cala é a vida dormente,
A televisão ligada passando qualquer coisa que não atrai,
O pensamento distante se eleva,
O travesseiro tenta acomodar a cabeça sem sucesso.


O cansaço inerente ao corpo,
A dor no abdômen percorrendo lentamente,
O frio começa a se ampliar ressoando pela pele,
O sorriso que não faz efeito diante do espelho.


O olhar deslizante pelo horizonte,
Perdido entre lembranças e perspectivas futuras,
O chão da consistência de gelatina,
A árdua pressão das horas guardadas.


Os sonhos parecem ausentar,
Um vazio invade a palma da mão,
A frágil resistência das pernas perante a caminhada,
A vida sendo rifada na caixa de Pandora.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Telegrama


Quando no silêncio de sua cama,
Estiver com os olhos abertos à meia pálpebra,
Com o pensamento velejando ao longe,
Lembre-se que não estará sozinha.

Quando a companhia do travesseiro,
Não esteja mais sendo suficiente,
E o diálogo invisível deixar de ser satisfatório,
Lembre-se das minhas mãos afagando seu rosto.

Quando o temor cerrar seus olhos,
Receosa de algum indigesto sonho ruim,
Que possa disparar a angústia do seu coração,
Lembre-se que estarei velando o seu sono.

Quando tocar em suas mãos,
Sentir que elas estão mais secas e frias,
Se uma corrente de ar gélido invadir o seu quarto,
Lembre-se do meu calor aquecendo seus dedos.

Quando a cabeça e as preocupações sentirem o peso dos dias,
A insegurança bater mais do que deveria,
Palpitar aceleradamente o frenesi cardíaco,
Lembre-se do meu abraço protegendo o seu corpo.

Quando fantasmas e abutres rondarem o seu espaço,
Invadirem o terreno de suas dores,
Dispararem o alarme da ansiedade,
Lembre-se que estarei guardando a sua alma.

Quando despertar no meio de alguma madrugada,
Cansada e sentindo o corpo com calafrios,
Se alguma lágrima correr do canto dos seus olhos,
Lembre-se que suavemente colherei cada gota a deslizar.

Quando o ritmo dos dias cansarem suas pernas,
O corpo já não conseguir render as expectativas,
Veja que alguma coisa estará lhe dizendo para não se maltratar,
Lembre-se que minhas palavras buscando o caminho da tranqüilidade.

Quando acreditar que sozinha vencerá todos os obstáculos,
Mas são tantas pedras que ninguém as retira em solitude,
O pior dos caminhos é quando viramos ilhas,
Lembre-se que meus olhos sempre foram pontes para cada dilema emergido.

Quando o sorriso para o mundo,
Não corresponde à alegria verdadeira da alma,
É provável que alguma coisa não esteja em sintonia,
Lembre-se que a verdadeira Paz é aquela sentida pelo coração.

Não esqueça que não são meras metáforas que tingem o papel,
O tempo sempre tem algo a nos dizer,
Segredos que muitas vezes demoramos a entender,
Lembre-se que a distância nunca foi uma boa conselheira.

O Amor não é um bicho de múltiplas cabeças,
A vida não pode ser uma tormenta sem fim,
Os fantasmas internos não podem festejar todos os dias,
Lembre-se que em algum momento poderá emanar um sorriso.

Um dia a saudade vem,
No outro dia também,
Se alguma palavra atingir a sua alma,
Lembre-se que é o meu Amor tocando em seu coração.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ausência: Presente!


Manhã de Sol dos dias incompletos,
Domingo de frieza angular,
Desperto com Djavan ao longe,
Entre livros e pensamentos soltos está a cama vazia.


Da janela como um quadro de cores pálidas,
Ruas de pouco movimento e o silêncio se torna uma sinfonia,
Ocasionalmente alguns automóveis quebram a rotina monolítica,
Sinto ficar sem palavras para descrever um olhar lânguido ao longe.


A pergunta que é feita para os ponteiros do relógio,
Quando o tempo desacelerar e deixa de castigar,
Congelar até petrificar os grânulos da ampulheta do tempo,
Até quando seu semblante ausente se faça presente?


Quando o seu corpo se isola,
Dentro de conhecidas muralhas de longa dor,
O desatino Sol que brilha lá fora,
Não aquece os lábios torrentes aqui dentro.


No peito há a fervura da intensidade,
Daquela sintonia única por nós conquistada,
Aquele toque que faz a epiderme trêmula,
Sentimentos velados que fazem alterar a cor do seu olhar.


Hoje o dia poderia ser azul,
As nuvens se unido como um imenso algodoeiro,
Mas a realidade é mais árdua que aparenta,
Eu, você, nós... Pronomes tão fragmentados!


No limite de cada hora ausente,
Estilhaços resultantes de pequenos vidros cortantes,
Que rasgam discretamente cada movimento dos ponteiros,
A pele delineada por filetes vermelhos de estática espera.


Sobrevivo aos dias e vivo a encarar demônios,
Sabor acre navegando na boca seca,
Semente da presente ausência da tez de suas mãos,
Desejos castrados por ansiedade e medo.


Diante da janela o Sol destaca uma cor opaca,
Brilha sem aquecer o que está ao meu redor,
Púrpuras lembranças que agora desunem lábios,
A solidão do cálice vazio já embriagado.


Ausência presente de tempos retorcidos,
Flâmula apagada de olhos cerrados,
Estendo minhas mãos na tentativa de clarear seus dias,
Desperte! O Sol lá fora e o Amor tinindo aqui dentro.

domingo, 18 de maio de 2008

Flor do Asfalto


Flor da madrugada fria sem rumo,
Estrada guiada pelas veleidades da alma,
A meia-luz que trás um brilho tão opaco,
Qualquer canção remete ao seu semblante.


Flor do calendário que rememora saudades,
Lembranças de olhos tão pueris ofegantes,
A ansiedade como palavra de ordem,
Imperativa são as forças que oprime o coração.


Flor da trilha que não resta muito senão caminhar,
Um percurso deserto e sem surpresas,
As cores que outrora cintilava,
Tudo se tornou mais cinza na sua ausência.


Flor aturdida no ritmo constante do silêncio ensurdecedor,
As palmas das mãos ainda continuam vazias,
A escuridão noturna aflige e arde,
Atiça a angústia do desejo nunca satisfeito.


Flor do jardim arquitetado para seus olhos,
O mundo poderá ser mais simples do que aparenta,
Porém, suas pálpebras ainda adormecem,
Como um sonho contínuo movido à afasia.


Flor de minha alma prostrada ao vento,
Quero a flor mais bela para lhe ofertar,
De forte vermelho que clareia o seu chão,
Que traga a Paz necessária aos seus anseios.


Flor dos meus dias insones,
Palavras dormentes e interditadas na garganta,
Horizonte do desejo encarcerado e mordido,
A felicidade castrada que nunca é permitido voar além do tatame.


Flor de minha dor guardada,
Desabrochando num disforme espaço-limite,
A cada passo dado no longo percurso,
Veja, é tão curta a distância entre as pontas de nossos dedos!


Flor desabrigada de sua retina,
Prisão íntegra de si mesma,
Distância curvilínea dentre nossos olhos,
Flor dolorida que brota no leito do frio asfalto.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Vestígios de Saudade


A saudade não é um sentimento,
É a crucificação em vida de todas as dores sentidas,
Rascunhos mordazes martelando nas palmas das mãos,
A estaca plúmbea adentrando a carne.


A saudade transpassa todos os outros pulsares,
Marca com uma lança em brasa,
O registro indelével na derme,
Cozendo sangue e carne em letras disformes.


A saudade invadindo todos os poros da pele,
No despertar de uma noite sem sono,
Alguns feixes de luzes adentram ao quarto,
Povoando o cálice vazio da espera.


A saudade não apenas maltrata,
Ela massifica a dor em eclosão,
É um grito ardido num deserto gelado,
Um eco desesperado sem nenhuma receptividade.


A saudade não é chão. É puro barro,
Argila que faz a alma deslizar,
Areia movediça que engole os corpos,
A instabilidade que pulveriza a razão.


A saudade sorrateiramente eclipsa a alma,
Castiga os membros com tamanha paralisia,
Mãos, olhos e lábios incomunicáveis,
O sentido da dor maior em vida ausente.


No descompasso presente em cada coração,
A saudade se nutre com ares de perversão,
Todos os medos imagináveis e ainda não refletidos,
Invocando todos os demônios e liquefazendo qualquer tranqüilidade.


Os pesadelos inverossímeis são vivenciados como verdades provisórias,
A saudade contribui para criar um clima de desolação,
A ansiedade presente em cada silêncio,
O Purgatório que transcorre nos dias de abismo.


As boas lembranças torturam severamente,
Até as más memórias mudam de caráter na ausência,
Mutação de cores claras em tinturas fúnebres,
A saudade é como ácido deslizando livremente sobre a superfície da pele.


A saudade é um livro cheio de páginas a serem relidas,
Olhos cansados de tanto abatimento,
A abstinência do Amor conduz às mãos carregadas de vazio,
As inseguranças passam como um rolo compressor por todas as reentrâncias de dúvidas.


O coração pulsa amparado,
Atirado ao vento como papéis diante da janela,
Quando coração e papéis deixam de serem simples metáforas banais,
A saudade sofre a vã tentativa de ser incinerada sem qualquer lucidez ou piedade.


A saudade não é um trem que passa,
É o passageiro que desce e fica parado na estação,
A saudade permanece, permanece...
Fragmentada, atada e silenciosa.

domingo, 4 de maio de 2008

Gota Rubra (Canção de uma Manhã Chuvosa)


Há uma gota de sangue em cada flor ofertada,
Que deixa um longo lastro de opressão,
Sabre o pulsar existencial de cada peito,
Tornando o ar cada vez mais rarefeito.


Há uma gota de sangue que se dilui nas águas de Maio,
O cair intermitente de um temporal quase sinfônico,
Cotidiano trafega soturnamente com uma frieza inóspita,
A saudade amplia-se como hematomas presente da alma.


Há uma gota de sangue em cada gesto ignorado,
Maculando a liberdade dos sentimentos em profusão,
Lacrando o grito suprimido no leito da garganta,
Na batalha travada contra a insensata espera.


Há uma gota de sangue nas vestes emaranhadas pelos nossos laços,
Que registra na certidão dos longos dias de destino,
Enegrecendo o ladrilho do sinuoso caminho,
Superando com brutalidade os laços entre os dedos.


Há uma gota de sangue mesclando vendavais inconstantes,
Dias de sofreguidão entre as sombras na labuta imaterial,
Como soldados marchando com seus capacetes para o combate,
Com o peito exposto para cada lança que perfura a derme.


Há uma gota de sangue na palma de suas mãos,
Com dedos lacrados imaginando que seria possível se esquivar da dor,
Atados no frio limítrofe da navalha de uma esperança inexata,
A busca pelo inútil refúgio contra todas as dores.


Há uma gota de sangue que dilui na longa tempestade,
Da janela é possível ouvir os pingos da chuva se liquefazer contra o alumínio,
Torrentes d´água ampliam-se a cada minuto,
Acinzentam-se os dias e abrem-se os poros latentes.


Há uma gota de sangue que clama por liberdade,
Contra os grilhões que enclausura nosso peito,
Levantando toda a espessa poeira que cega a retina,
Separando corpos em novas noites de penumbra.


Há uma gota de sangue em cada pesadelo voraz,
Eclipsando a visão tangida de pavor como um rolo compressor,
O inconsciente batendo ferozmente à porta,
Tantas angústias para tão pouca certeza.