terça-feira, 23 de setembro de 2008

Latência (Esperando alguma Primavera)


Despertar desconsolável de madrugada,
Após mais uma noite de sonho ruim,
O corpo dói como se tivesse trafegado pelo interior de um moinho de carne,
Em todo ao redor, a casa completamente vazia.


A acidez do estômago desemboca solenemente,
No aprimoramento do sabor acre da boca,
O estômago queimando como fornalha,
E o coração gotejando foi amordaçado por atávicos grilhões.


Na noite em que quase todos dormem,
Outros perambulam sem prumo pela cidade,
O quarto é um impiedoso cárcere voluntário,
Desejaria tanto estar perto; mas os ventos nos levaram para longe.


Palavras trêmulas saltam entre os lábios,
O desejo aprisionado pelo vidro da janela,
Corte profundo entre ter e não mais ter,
Dimensão nada prosaica do sentido profundo da falta.


Entregaria todos os dedos e anéis,
Apostaria todos os meus botões,
Atiraria pedras em todas as vidraças,
Quem sabe, até finalmente pudesse lhe encontrar.


Lábios aprisionados pela vontade de um único beijo,
Arquitetura forjada entre a ânsia e o desejo,
Noite de saudades sem limites ou fronteiras,
Sobre o papel, atenua-se a angústia num pouco de distração.


Momentaneamente, a onisciência é o maior de todos os anseios,
Talvez para compreender tantos dilemas existenciais,
Saber o que se esconde debaixo da cortina da cidade,
Quem sabe assim velaria o seu sono...


Contentar-se com o que não tenho,
Engolir a seco deslizando com grãos de vidro pela garganta,
Dedos amargando inutilmente a orfandade,
Lábios vedados com cadeado soturno.


E o que restou do imenso jardim à beira da porta?
Talvez não soubesse confiar até a chegada da Primavera,
Quando as palavras foram mutiladas pela estrada,
Aprisionadas numa caixa de vidro cheio de mágoas.


Perdura através do silêncio uma madrugada de calor intenso,
Ainda à espera das flores provenientes de alguma Primavera,
O cansaço inunda os olhos e vencendo todo o corpo,
Os pensamentos jazem no vazio ardendo latentes e sôfregos.

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