terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Lamento do Cárcere


Por que será que minhas palavras não chegam ao destino?
O rio não se desemboca solto para o mar,
A estrada não se livra dos percalços,
E as nuvens não deixam o tempo clarear.


Por que será que o caminho é sempre talhado por obstáculos?
Os pés cansados de tamanho esforço e inquietação,
A cabeça pesada com tantos pensamentos vagantes e inconclusos,
E os lábios se tornam mais secos e com minúsculas fissuras.


Por que será que seus olhos não vêem minhas mãos?
Um manto escuro que venda os sentidos,
Logrando todas as formas de ação e germinando trilhas desconexas,
E sinto você fluindo para longe da minha retina.


Por que será que a voz não é devidamente interiorizada?
Talvez seja as sirenes do trânsito que atrapalham os tímpanos,
Os receios pavimentam uma trilha de auto-proteção,
E no final, o descarte de tudo o que deveria ter ser mais afetivo.


Por que será que quase invariavelmente a boa história fica refém da indiferença?
E se refugia em caprichos de repetições de calejadas tormentas,
Velhas lições que nunca deveriam ser esquecidas,
E pactuar com tudo o que seja estavelmente infeliz.


Por que será que a vida guarda composições de crueldade ímpar?
Elevar segredos e lançar intrigas tão desnecessárias,
Realçar a desconfiança e a construção de muros,
E que nos deixam sofregamente cada vez mais isolados.


Por que será que há momentos que a chuva caprichosamente não toca o nosso jardim?
A ventania que congelou maquiavelicamente os laços,
De repente, o ar se tornou instável e rarefeito,
E os ventos levaram a luz do seu olhar para o outro lado da cidade.


Por que será que não sente o meu clamor bater à sua porta?
Talvez seja mais fácil desacreditar em minhas mãos,
Afinal, é sempre mais cômodo agradar o fel de todos os vampiros,
E assim fazer coro com o famigerado politicamente correto.


Por que será que o Amor é o último dos sentimentos a serem ouvidos?
Talvez fosse melhor trancafiar no calabouço suas vontades,
Assim poderia ligar burocraticamente o piloto automático da vida,
E se prender às obviedades insípidas dos livros de auto-ajuda.


E na esteira das palavras barradas nas impiedosas muralhas,
Peregrino na insolubilidade dos insones sentidos,
Na árdua solidão do cárcere à revelia,
Cumprindo a sentenças dos crimes que não cometi e nem tive a oportunidade de cometer...

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