domingo, 12 de agosto de 2007

Auto-engano


Não ceife com uma réstia de escárnio
o pranto alheio moldado em carne latejante,
com a mesma facilidade de zombar docemente
de um olhar em ódio tinindo em sangue.

Não esfacele as últimas pétalas de folhas atiradas ao chão
já embriagadas de vinho fartamente encharcadas de máculas,
onde o destino teima em desviar o curso do inevitável estilhaçar das mãos
e não esqueça de levantar a cabeça antes que a perca para sempre.

Não sufoque a dor lastreada em uma fé cuja profundidade é um pires
com a mesma força que esquivou os lábios da boca febril em desejo,
já não há tempo para cultivar as sementes da discórdia
a brevidade da vida é implacável com os descrentes e os idiotas.

Não brinde com o cálice venenoso que enegrece o olhar,
tanta obscuridade ofusca as luzes das tolices contidas em bordas fragmentadas do anjo,
e não esqueça que o mesmo martelo onde talhou os pregos que corroeram a carne de Cristo
poderá ser o mesmo para demolir muros outrora intransponíveis e celebrar a custosa liberdade.

Não insulte o Amor com as mesmas crendices acovardadas e alardeadas pelos imbecis,
provavelmente estará no coração dos enfermos a resposta para as pontes amaldiçoadas,
não sele com lábios trêmulos a carta de apresentação ao Purgatório de Dante,
antes um beijo entre lâminas a adaga pontiaguda adormecida no coração.

Não espere que a solidão seja o melhor Paraíso das almas em tormenta,
a cada passo nos atalhos da vida será uma porta adicionada ao seu calabouço voluntário,
ouça bem atenta a canção daquele que busca em vão os avatares caminhos do labirinto
e não internalize o auto-engano seduzida por cânticos de ardilosas lamúrias do Minotauro.

Não postule tolas mentiras com o inútil ensejo de trair o próprio coração,
se todas as mentiras fossem verdades indissolúveis,
nenhuma verdade seria necessária
e viveríamos com pálidos sorrisos eternamente afogados em um adiabático turbilhão de enganos.

Não cultive o medo como sendo a insana expressão máxima da vida
com a mesma tenacidade daqueles que romanceiam a dor como o último dos subterfúgios
o seu sorriso se amarela com a tristeza dos olhos sem solo
e não acomode os delírios infantis de uma esperança que jamais virá a se concretizar.

Não sorria para os outros apenas para transparecer a falaciosa felicidade do coração
ninguém colherá uma única lágrima quando estiver refém da escuridão do quarto,
será inútil gritar quando o tempo consumir em chamas a rota da estrada
e todo o caminho já terá sido perdido e sem volta.

Não celebre na morte
a mesma ânsia de reviver nas trevas,
a vida que não soube
como vislumbrar na Terra...

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