sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Amor como Commodity (O Assassinato de Romeu e Julieta)


O que falar do Amor,
Quando quase todas as bobagens já foram ditas?
Atiradas de forma imbecilizada por toda programação televisiva,
Plastificadas ou embaladas à vácuo pelos quartos de motéis da cidade.


O Amor ridicularizado, surrado e remendado,
Com a futilidade dos que fazem sexo pela metade,
Nem os animais conseguem ser tão artificiais,
Quando a burocracia vence o Amor.


O comércio do prazer imediato,
O drinque, o sorriso e o papo furado,
A trepada sem rosto ou tato e sem camisinha ou não,
O Amor sendo canibalizado.


Quem é você na minha cama?” – Pergunta alguém no dia seguinte,
Protocolo em três vias, RG, CPF e foto 3x4,
Cadastro, referências e lista telefônica,
Rodízio da senha de espera para o love customizado.


A balada, o babado forte, o êxtase e a basbaquice,
A noite que brilha à erva, Viagra ou fileira esbranquiçada,
Loira, morena, negra, nipônica ou ruiva,
A genitália sem preconceitos é (quase) sempre tudo igual!


No mercado dos prazeres imediatistas,
Licitação de carnes e corações sentimentais cotados via pregão eletrônico,
Orkut, MySpace, Bebo, Parperfeito é tudo clique e ponto "com",
O grande leilão sentimental na websolidão.


Hoje eu vou, amanhã é sua vez: “Olá, lembra de mim?”,
Rodízio de veículos e de corpos sem vontade própria,
O desejo é tão efêmero e volátil,
A mesa de bar e a cantada estéril pré-programada: "Muito prazer, meu nome é Prozac!".


Não perder tempo e a “fila anda”,
Olha a hora, o abate é agora!
Vai quer ou não? Decida-se!
Bem-vindo ao Paraíso: cama, gozo, ronco e tchau!


Sou romântico, amanhã passo qualquer mensagem,
Qual era o nome mesmo?... Começava com a letra...
Quem se importa? Um rostinho a mais na multidão,
Aliás, o Amor tem algum rosto?

O sexo e a felicidade com códigos de barras e leituras ópticas,
Caça à presa, cartão de crédito e pagamento parcelado,
Relacionamentos na velocidade da permuta de cuecas e calcinhas,
O Amor como commodity sentimental.


Relações narcíseas nunca completadas,
O outro que não encaixa na esfera do ego,
A Paixão bloqueada que não atinge o Amor,
O fosso abissal da imensidão voluntária do vazio.


O assassinato de Romeu e Julieta: fim das querelas românticas!
O gozo imediato nunca saciado ou aliviado: “O ‘próximo’, please!
O medo do Amor e os anseios do aprisionamento pelo outro,
A fluidez mercantil dos enlaces afetivos.


Não quero Amor; só beijar bocas, postes e lustres!
A puberdade estendida para além da idade adulta,
O sexo anônimo sem proibição, excitação ou culpa,
A ansiedade da Paixão sem sabor e o Amor jamais consumado.


A auto-suficiência que blinda os sentimentos,
Transforma todas as ações em pulsão de morte,
O ego desfraldando a flâmula de Narciso,
O temor do outro é um coito interrompido.


Quero Amar e nunca compartilhar,
Quero viver e nunca doar,
Sinais de desconexão afetiva, borderline e o ego que auto-satisfaz,
Amor como fuga de Alcatraz.


Síndrome de Cinderela ou Peter Pan,
A imaturidade do mundo imaterial,
A mendicância e a escravidão de corpos e prazeres sem gozos,
O sexo como espetáculo globalizado.


Amor sem amar?
Quem quer correr algum risco?
Pragmatismo mecanicista na sociedade de consumo,
Amor na prateleira de supermercado.

Nenhum comentário: